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Crianças indígenas são sugadas por maquinário de garimpeiros em Roraima

Deaga dos garimpeiros, reponsável pela morte de crianças indígenas

Uma brincadeira de crianças acabou em tragédia na tarde de terça-feira (12/10) no rio que banha a comunidade Makuxi Yano, região do Parima, Terra Indígena Yanomami, em Roraima.

Duas crianças que nadavam perto de uma balsa de garimpeiros foram “sugadas” pela draga que faz a retirada de minérios na região do rio Uraricuera, no município de Alto Alegre. Nesta quarta-feira, um dos meninos, de 5 anos, foi encontrado sem vida. O outro, primo dele, de 4 anos, segue desaparecido.

“A draga gigante puxou as crianças, sugou as crianças e elas desapareceram. É uma situação grave, estamos preocupados, muito tristes e revoltados. Para nós Yanomami e Yekuana as vidas das crianças são sagradas, pois serão futuros guerreiros”, afirmou Dario Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

“As crianças estavam brincando no rio, banhando. Elas já são acostumadas. Não precisam ir acompanhados dos pais, porque desde que quando nascem já aprendem a atravessar e nadar nos rios. Tudo isso faz parte da nossa cultura, isso nunca tinha acontecido”, lamentou Dario.

Dario afirma que a balsa de garimpeiros onde está localizada a draga fica a apenas 300 metros da comunidade Makuxi Yano, na calha do rio Uraricuera e atua, de maneira ilegal, sem que nunca tenha sido incomodada pelas autoridades.

“Um dos mais antigos garimpos da região do Parima e que nunca teve uma operação contra eles, nem Polícia Federal, Exército, Ibama, nunca pisou lá. Os maquinários continuam na ativa”.

Funai ignorou denúncia

A denúncia do desaparecimento das crianças foi feita pelo Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY). Dario afirma que a Fundação Nacional do Índio (Funai) foi avisada, mas não deu retorno aos indígenas.

Em nota, o Corpo de Bombeiros Militar de Roraima afirma que enviou, na tarde de quarta-feira, por volta das 16h30, uma equipe de quatro mergulhadores para realizar as buscas pelas duas crianças indígenas vítimas de afogamento na região do Parima.

“Devido a distância e a dificuldade de acesso, o CBMRR ficou aguardando a disponibilização de uma aeronave pela autoridade indígena solicitante, o que só ocorreu no final da tarde. Os mergulhadores estão no local realizando as buscas desde as primeiras horas de quinta-feira”, conclui a nota.

Terra sem lei

Mais de 20 mil garimpeiros continuam a explorar ilegalmente a Terra Indígena Yanomami mesmo com ordens do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Justiça Federal para a retirada dos invasores.

De acordo com a Hutukara, até setembro de 2021, a área de floresta destruída superou a marca de 3 mil hectares – um aumento de 44% em relação a dezembro do ano passado.

Somente na região do Parima, onde está localizada a comunidade de Macuxi Yano e uma das mais afetadas pela atividade ilegal, 118,96 hectares de floresta foram devastados, o que representa um aumento de 53% sobre dezembro de 2020.

Além das regiões já altamente impactadas, como Waikás, Aracaçá, e Kayanau, o garimpo avança sobre novas regiões: em Xitei e Homoxi, a atividade teve um aumento de 1000% entre dezembro e setembro de 2021.

Entidades e povos indígenas afirmam que, desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, as invasões e apropriações ilegais de terra se multiplicaram.

Em diversos discursos, o atual presidente já incentivou que áreas ambientalmente preservadas sejam ocupadas por garimpos e pelo agronegócio.

“O aumento da atividade garimpeira ilegal na Terra Indígena Yanomami está se refletindo em mais insegurança, violência, doenças, e morte para os Yanomami e Ye’kwana. As autoridades brasileiras precisam continuar atuando para proteger a Terra-Floresta, e impedir que o garimpo ilegal continue ameaçando nossas vidas”, diz nota da Hutukara.

A invasão garimpeira causa a contaminação dos rios e degradação da floresta, o que reflete na saúde dos Yanomami, principalmente crianças, que enfrentam a desnutrição por conta do escasseamento dos alimentos.

O número de casos de Covid entre indígenas que habitam a região, aumentou em razão da presença de garimpeiros. No ano passado, em apenas três meses, as infecções avançaram 250%.

RPP

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