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Fotógrafo gay tenta ajudar vítimas de Covid-19, mas tem plasma recusado

Hospital recusa doação de sangue de gay

Infectado pelo covid-19, o fotógrafo André Ligeiro, 32 anos, começou a sentir os primeiros sintomas no dia 13 de março. Fez teste no dia 15, comprovou que estava com o vírus, passou cerca de duas semanas convalescendo até que, o fim do mês, já não sentia mais nada. “Tive muita sorte porque os sintomas foram leves, dor no corpo, coriza, fraqueza, mas sem febre.”

Plenamente recuperado, Ligeiro tomou conhecimento de que pessoas do sexo masculino que já têm o anticorpo para coronavírus e fazem parte de uma determinada faixa etária (a dele) poderiam doar o plasma para colaborar com um novo tipo de tratamento que têm dado esperança de sobrevida a pacientes em estado crítico (o mais grave).

De acordo com a notícia, veiculada em um programa de TV, os dois hospitais que ofereciam esse procedimento eram o Sírio-Libanês e o Einsten, ambos em São Paulo. A fim de obter informações complementares, Ligeiro ligou no dia seguinte para o Sírio, que fica mais perto de sua casa.

Cadastro básico
“A pessoa que me atendeu fez o meu cadastro e disse que eu seria procurado ainda naquele dia. Pouco depois, recebi a ligação de uma médica que me perguntou se eu tomava algum remédio controlado, se era hipertenso, se tinha problema no coração, enfim, se eu preenchia todos os pré-requisitos exigidos de um doador de sangue.”

Na ligação, a médica marcou para dali a três dias uma visita de Ligeiro ao hospital. Informou que o submeteriam a um teste sorológico, para saber se ele era portador de alguma doença que o impedisse de ser doador. “Se estivesse tudo ok, eu precisaria comparecer ao banco de sangue do hospital a cada sete dias, durante quatro semanas, para eles retirarem o plasma.”

No procedimento, o sangue sai do braço, passa por uma máquina que retira o plasma, e volta para o doador.

 Só uma pergunta

Ciente do desconforto, mas disposto a ajudar, Ligeiro topou se submeter ao processo. Mas faltava fazerem uma pergunta:

— Qual a sua orientação sexual?

— Eu estou casado há três anos com um homem.

Banido da lista

Aparentemente, trata-se da questão que mais pesa em toda investigação. Graças a ela, não realizaram nem o teste sorológico em Ligeiro. Banido da lista de doadores, ele recebeu a informação de que faz parte da população em que se verifica a maior incidência do vírus HIV, causador da Aids.

O fato de ser um homem que faz sexo com homem (HSH), aumentaria o risco de transmissão do vírus ao receptor.

A recusa não é uma conduta exclusiva do Sírio-Libanês. De acordo com a Portaria GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, do Ministério da Saúde, homens que tiveram relações sexuais com outros homens nos 12 meses que precedem a doação não podem participar do processo. Uma resolução da Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) endossa a portaria.

Segurança transfusional

Apesar do baixo estoque nos bancos de sangue, o ministério decidiu manter o impedimento aos HSH na pandemia. Diz que é uma questão de “segurança transfusional”.

De acordo com o ministério, não se trata de discriminação pela orientação sexual. Informam que o Brasil segue uma recomendação da OMS (organização Mundial da Saúde), e a decisão se baseia em pesquisas epidemiológicas feitas aqui.

Janela imunológica

A coluna indagou à assessoria do ministério se o teste do HIV não seria suficiente para verificar se o doador tem o vírus. Não obteve resposta até a publicação do post. De qualquer forma, especialistas informam que o período de contágio, chamado de “janela imunológica”, compreende apenas três meses.

Até o surto de covid-19, os Estados Unidos também seguiam a orientação da OMS. Em uma decisão emergencial, porém, a FDA (Foods and Drugs Adminisrtration) baixou o prazo de 12 para três meses. O órgão diz que vai manter a decisão depois da pandemia.

Indignado, Ligeiro faz uma solicitação: “Avisa a OMS e ao ministério da Saúde que há inúmeros homens heterossexuais, casados com mulher inclusive, que fazem sexo anal com outros homens.”

RPP

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