Sexo oral, HPV e câncer

A recente declaração do ator norte-americano Michael Douglas de que o seu câncer de garganta foi provocado pelo vírus HPV, adquirido pela prática do sexo oral, assustou muita gente, mas é preciso evitar terrorismo com o assunto.

Sim, é verdade que está clara a associação entre o HPV e o câncer de boca e orofaringe (região atrás da língua, o palato e as amígdalas). Nos EUA, 50% desses tumores já são causados por HPV.

No Brasil, não há estatísticas, mas os hospitais oncológicos dizem que na última década os casos dispararam por aqui também.

No Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, 80% dos tumores de orofaringe têm associação com o papilomavírus. Há dez anos, essa associação existia em 25% dos casos. No Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), 60% dos casos de câncer de orofaringe atendidos em 2010 tinham relação com o HPV.

Mas ainda há dúvida se houve um aumento real de casos ou simplesmente uma mudança no perfil da doença. Antes, os cânceres de boca e da orofaringe afetavam homens mais velhos, tabagistas/e ou alcoólatras (exatamente o perfil de Michael Douglas). Hoje atingem os mais jovens (entre 35 e 45 anos), que não fumam e nem bebem em excesso, mas praticam sexo oral desprotegido.

Outra hipótese é que a incidência esteja aumentando porque a tecnologia que permite o diagnóstico melhorou com o desenvolvimento de mais exames de biologia molecular capazes de detectar o HPV, o que antes não acontecia.

O que é preciso deixar claro é que o HPV é um vírus muito presente na pele ou em mucosas e afeta homens e mulheres. Cerca de 80% da população já se infectaram, mas não tiveram verrugas nem câncer.

Há mais de cem subtipos de HPV, entre 30 e 40 deles podem causar doenças, como verrugas genitais e tumores no pênis, ânus, vulva, orofaringe e, o mais comum, no colo do útero.

A boa notícia (se é que ela existe numa situação dessas) é que os tumores de orofaringe relacionados ao HPV têm um melhor prognóstico em relação àqueles provocados pelo fumo. Eles respondem melhor à quimioterapia e à radioterapia e, muitas vezes, não há necessidade de cirurgia.

Fonte: Cláudia Collucci é repórter especial da Folha, especializada na área da saúde

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