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Marília Mendonça e o sertanejo que devemos levar a sério

Marília Mendonça, musicas para se levar a sério

Marília talvez tenha unido as duas Goiânias. Sim, a capital do estado de Goiás tem dois lados bem distintos. Um é o da capital do Sertanejo, que modernizou a música caipira na década de 90 e de onde foram lançados nomes como Zezé de Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, entre outros.

A Goiânia que tem na pecuária sua maior festa e que é estereotipada pela mídia do eixo Rio/São Paulo como uma cidade de gente que usa chapéu e tem fogão à lenha em casa. Uma metrópole com jeito de cidade de interior.

A outra Goiânia é a cidade que já foi conhecida como a “Seattle brasileira”, com grandes festivais de rock, como o Goiania Noise e o Bananada, que tradicionalmente era realizado na mesma época da pecuária. Contrapor-se ao Sertanejo que hegemonizava a cidade era a missão das várias bandas que surgiram a partir dos anos 90 e nos 2000.

Algumas até ficaram conhecidas, como Boogarins e Carne Doce. É a “gayania” das várias boates LGBTs, a Goiânia do Setor Universitário, do movimento estudantil com tradição de luta, dos grupos de rap. Enfim, outra Goiânia, que rejeita o rótulo de cidade caipira.

A primeira vez que ouvi Marília Mendonça foi em uma boate LGBT em Goiânia. Ainda era no início da carreira da cantora, ela não era muito famosa. Pelo que percebi, o público abraçou as músicas que falavam de sofrimento amoroso em uma ótica diferente do homem heterossexual.

Marília começou seu interesse por música no rock e no rap. Depois foi para o Sertanejo. Era antenada com as duas Goiânias. E talvez tenha conseguido captar o melhor de cada uma.

Sertanejo deve ser levado à sério
Não dá para ignorar a música que em vários lugares é a preferida da classe operária. Quando eu estava em São José dos Campos, trabalhando para o sindicato dos metalúrgicos, era o que tocava nos bares.

Uma visão muito simplificada da teoria crítica da comunicação faz com que alguns militantes achem que se trata apenas de “alienação” e o operariado vai fazer a revolução no dia que passar a ouvir Chico Buarque ou rock progressivo.

Devemos levar a música sertaneja a sério. Em primeiro lugar pelo seu alcance popular. Em segundo lugar pela riqueza de sua história.

O sertanejo inicialmente era a música do camponês obrigado a deixar a vida na fazenda para trabalhar na cidade. Cantava a solidão das vítimas do êxodo rural. Com bem diz a letra de “Saudade da minha Terra”:

Por Nossa Senhora, meu sertão querido
Vivo arrependido por ter te deixado
Esta nova vida aqui na cidade
De tanta saudade eu tenho chorado
Aqui tem alguém, diz que me quer bem
Mas não me convém, eu tenho pensado
Eu vivo com pena, mas esta morena
Não sabe o sistema que eu fui criado
Tô aqui cantando, de longe escutando
Alguém está chorando com o rádio ligado
Versos com essa beleza e profundidade são encontrados em várias “modas de viola”. Como em “Poeira Vermelha”, onde a passagem do tempo e a efemeridade da vida é comparada com o movimento de uma carroça passando em uma estrada de terra. Os versos de “A caneta e a enxada” nos contam uma fábula que resume de forma poética o conceito de alienação entre trabalho intelectual e manual:

Certa vez uma caneta foi passear lá no sertão
Encontrou-se com uma enxada, fazendo uma plantação.
A enxada muito humilde, foi lhe fazer saudação,
Mas a caneta soberba não quis pegar na sua mão.
E ainda por desaforo lhe passou uma repreensão.”
Disse a caneta pra enxada não vem perto de mim, não
Você está suja de terra, de terra suja do chão
Sabe com quem está falando, veja sua posição
E não se esqueça a distância da nossa separação.
Eu sou a caneta dourada que escreve nos tabelião
Eu escrevo pros governos a lei da constituição
Escrevi em papel de linho, pros ricaços e pros barão
Só ando na mão dos mestres, dos homens de posição.
A enxada respondeu: de fato eu vivo no chão,
Pra poder dar o que comer e vestir o seu patrão
Eu vim no mundo primeiro, quase no tempo de Adão
Se não fosse o meu sustento ninguém tinha instrução.
Vai-te caneta orgulhosa, vergonha da geração
A tua alta nobreza não passa de pretensão
Você diz que escreve tudo, tem uma coisa que não
É a palavra bonita que se chama educação!

Podemos dar outros exemplos de poesia em seu estado mais puro, como em “Tocando em Frente”, “Romaria” e “Cuitelinho”. A música do Brasil profundo toca nas profundezas de nossa alma. Artistas como Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Almir Sater e Tião Carreiro merecem estar do panteão dos grandes músicos brasileiros.

Mas não é apenas isso. As “modas de viola” em muitos casos denunciaram a concentração da terra nas mãos de poucos latifundiários, que fazia com que milhões de pessoas se mudassem do campo para a cidade.

Durante a Ditadura Militar, um terço de nossa população passou pelo êxodo rural. As letras não eram panfletárias, mas algumas falavam das desigualdades sociais. Como em “reino encantado”

Nosso sítio que era pequeno
Pelas grandes fazendas cercado
Precisamos vender a propriedade
Para um grande criador de gado
E partimos pra a cidade grande
A saudade partiu ao meu lado
A lavoura virou colonião
E acabou-se meu reino encantado
Esta é a origem de nossas periferias. Camponeses expropriados pelo latifúndio que foram para a cidade sem nenhuma assistência social. Se quisermos entender o Brasil e seu povo, temos que passar pela música sertaneja.

E a “dor de corno”?

Os efeitos do êxodo rural nos habitantes recém chegados na cidade eram muitos. Um deles era a dificuldade em estabelecer laços sociais. A solidão é um comum da música sertaneja.

E isso vai levar às músicas que falam das desilusões amorosas. O problema é que este sofrimento era cantado pela lógica masculina e o resultado foram letras extremamente machistas, como “tapas e beijos”, de Leandro e Leonardo.

A modernização do Sertanejo foi feita por caminhos tortuosos. Cristian e Ralf tentaram colocar alguns arranjos de rock, fazendo algumas músicas interessantes, como “Nova York”. Mas foi Zezé de Camargo, com “É o amor”, que fez o Sertanejo explodir na década de 90. Foi o início da fase “dor de corno”.

As duplas passaram a fazer um sucesso estrondoso em todo o Brasil. As gravadoras investiram pesado, as rádios apostaram no estilo e o sertanejo “modernizado”, com letras reduzidas a lamentações amorosas masculinas, caiu no gosto popular.

Nos anos 2000 era comum algumas duplas começarem a ficar famosas em calouradas e festas de formaturas das várias universidades particulares que tinha sido inauguradas à pouco tempo. Me lembro bem de comemorar um público de cerca de 500 pessoas em uma calourada do DCE da Universidade Federal de Goiás.

Eu era da direção da entidade e estava na organização. Alguns dias antes, uma calourada de uma instituição particular juntou pelo menos 10 vezes mais pessoas com Cézar Menotti e Fabiano.

Era o sertanejo universitário, com um arranjo mais pop e letras um pouco mais elaboradas. Tipo um Coldplay rural. Mas a desilusão amorosa masculina ainda era o carro-chefe.

Depois veio o “arrocha”, com letras que pegavam pesado no machismo. Havia um mal estar que incomodou até algumas pessoas do meio. Foi logo após a onda do “arrocha” que veio o “Feminejo” que apresentou ao país Marília Mendonça, Maiara e Maraísa, entre outras.

A música sertaneja é plástica, sabe se transformar para agradar ao público. Fala de um povo que até pouco tempo tinha raízes no campo e agora se aglomera em cidades. Canta as inseguranças e angústias do trabalhador comum. Por isso o enorme alcance por todo o país.

A indústria fonográfica pasteurizou o estilo, que é usado pelo latifúndio como trilha sonora de suas festas. Mas o Sertanejo é muito mais rico que isso. Uma riqueza que nenhum preconceito poderá apagar.

Ademar Lourenço

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