Carlos Lima
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Cultura
Carlos Lima | Publicado em 26/06/2019 às 16:56:29

‘Echo’, de Richard Serra, traz reflexão sobre o formato de fazer arte

‘Echo’, de Richard Serra, traz reflexão sobre o formato de fazer arte Echo- Foto de Henrique Artuni

Ao ver a escultura “Echo” de Richard Serra exposta no quintal do Instituto Moreira Sales de São Paulo, experimentei uma sensação dúbia.

Por um lado, perplexidade com a dimensão da obra, composta por duas placas de aço de 18,6 m de altura, cada uma pesando 70,5 toneladas, que levou três anos para ser transportada ao Brasil –um nível de fôlego, de cálculo e ambição de um artista que a família Moreira Salles deu ao país o privilégio de contemplar.

Fiquei muito impressionada com a impecabilidade e sobriedade do trabalho, com a objetividade e a elegância formal atreladas a uma sofisticação em assimilar as intempéries do tempo na própria superfície da forma. Enfim, apesar de já ter tido a chance de ver outras obras de Serra ao vivo, vê-la em minha própria cidade é um deleite estético.

Por outro lado, saí do IMS bastante desnorteada com o que chamei de má decisão de Serra em comprimir um trabalho tão grandioso em um espaço tão pequeno, claustrofóbico.

Fiquei extremamente incomodada com o fato de a escultura estar confinada a um espaço privado, ao invés de estar “atrapalhando” a calçada da avenida Paulista, ou no meio de alguma estrada em São Paulo.

Questionei Serra por essa escolha, pensando em como seria interessante ter um trabalho desse porte apropriado por moradores de rua ou interpelando trabalhadores sobre o cálculo necessário para se instalar tamanho “pedaço de ferro” naquele lugar.

A questão é que critiquei Serra por não tê-lo feito, e fiquei realmente sem entender a razão da escolha de um espaço tão convencional para a colocação do trabalho.

Considerando as questões políticas e sociais do país e do período em que vivemos, o ideal, a meu ver, teria sido que um trabalho desse porte pudesse ser visto por todo tipo de pessoa, em vez de estar confinado entre quatro opressoras paredes negras.

Depois de algumas conversas e pesquisas, e vencendo muitas resistências, entendi que Richard Serra não tem interesse no que eu estava cobrando de sua obra. Serra é um artista minimalista, e seu grande interesse é o aço, material com que ele vem trabalhando há aproximadamente 50 anos.

Serra é um exímio artista moderno, que investiga sobretudo a especificidade do seu meio, a especificidade da escultura, e, primordialmente, da chapa de ferro enquanto objeto escultórico.

Richard Serra é possivelmente o maior escultor moderno vivo –diria inclusive que levou a forma a um tal limite, a um tal ponto, que seu pragmatismo formal se inverteu em algo transcendental. Insistiu em um grau tão minucioso de cálculo, que o significante do cálculo passa a ter um aspecto divino, mesmo que à revelia de Serra.

Essa descoberta me fez tomar consciência de algo muito importante: não podemos exigir do outro aquilo que o outro não está se propondo a realizar. Isto é, não posso exigir que Richard Serra faça algo que não tem interesse em fazer com sua obra.

Não posso exigir de um artista moderno que ele seja contemporâneo –inclusive porque é algo que não sabemos ao certo o que realmente seja. Seria equivocado criticar alguém por aquilo que a pessoa não pretende fazer.

Se a questão for rigor formal, a obra de Serra entrega qualquer coisa que se possa cobrar. Dentro do que Richard Serra se propôs a fazer, é impecável, realmente não deixa nada sobrando.

Por isso, diria que é mesmo uma sumidade de seu tempo, e esgota tanto um problema da forma, quanto o modelo de relação obra-espectador que está instalada no IMS. Não vejo sentido em dar continuidade a esse tipo de trabalho depois de Serra.

Por isso, me pergunto: quais são as possibilidades hoje para a escultura? Quais são as possibilidades para o artista do futuro? Dentro das questões que o futuro nos apresenta, o que o artista não pode deixar de assimilar? Ainda, qual é a responsabilidade do artista do futuro, levando-se em conta que o artista é aquele que apresenta possibilidades para a miséria de um tempo?

Com certeza, as questões do tempo atual são muito diferentes das questões do tempo em que Serra iniciou sua investigação formal. Penso que, para que possamos começar a produzir algo legitimamente contemporâneo, temos que assimilar questões ainda muito pouco assimiladas, temos que assimilar o próprio conjunto composto pelas inovações, atrocidades, tragédias, contradições da nossa época.

Quando digo assimilar questões, não me refiro a usar o trabalho de arte enquanto meio para expor questões políticas, sociais ou espirituais de forma panfletária, mas me refiro, por exemplo, ao movimento dos impressionistas ao saírem do ateliê para pintar no campo, uma vez que, com a revolução industrial, agora havia bisnagas de tinta que podiam carregar com eles.

O que seria assimilar, na obra do homem contemporâneo, a potência, complexidade e contradição de um computador quântico, por exemplo? O que seria assimilar as fórmulas dinâmicas irregulares (pesquisa vencedora da Medalha Fields em 2014 do brasileiro Artur Ávila)? O que seria assimilar o fato de que, em poucos anos, grande parte dos profissionais será substituída por máquinas? Ou assimilar a facilidade do acesso que temos à informação hoje, o fato de que em breve estaremos colonizando o espaço –o que seria assimilar em nosso próprio corpo, na estrutura do nosso pensamento esse tempo que está por vir?

As duas placas de aço impecáveis de Richard Serra, instaladas no quintal do IMS, me fizeram entender que um tempo realmente se esgotou, esgotando assim um modo de fazer e pensar arte.

Acredito que as questões que injustamente cobrei do trabalho de Serra são o embrião das questões sobre as quais o artista do futuro terá que se debruçar.

ANNA ISARAEL

 

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