Carlos Lima
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Ciências
Carlos Lima | Publicado em 15/07/2017 às 10:00:23

Os animais que conseguem escapar vivos após serem devorados

Os animais que conseguem escapar vivos após serem devorados Alguns animais são capazes de sobreviver à digestão de seus predadores

Em 2012, biólogos que participavam de uma expedição ao Timor Leste, no sudeste da Ásia, flagraram uma cobra-cega-de-Brahminy rastejando de um lugar bastante inesperado: o traseiro de um sapo asiático comum.

A dupla de animais foi encontrada embaixo de uma pedra.

O ineditismo do acontecimento se deu por dois motivos. Foi a primeira vez que uma presa foi observada saindo viva após a digestão por um sapo.

Também porque, até então, nunca se vira um animal tão grande quanto uma cobra-cega escapar com vida após passar por um canal digestivo.

“É muito surpreendente que um vertebrado, que tem pulmões, seja capaz de sobreviver”, diz Mark O’Shea, da Universidade de Wolverhampton, no Reino Unido.

Probabilidades
Larvas e pequenos invertebrados marinhos podem passar ilesos por alguns predadores.

Mas presas maiores estão sujeitas a serem mastigadas até a morte. Mesmo que consigam se esquivar, viajar pela garganta inteira do predador pode ser muito complicado.

E, se conseguirem, encontrarão um desafio maior ainda.

A maioria das presas não conseguiria sobreviver à exposição aos ácidos gástricos que decompõem tecidos no estômago de um predador. Enfrentar a falta de oxigênio na profundidade do sistema digestivo é outro problema.

No entanto, para as presas engolidas por um sapo ou uma ave, as possibilidades de sobrevivência podem ser um pouco mais altas.

Esses animais costumam empurrar os alimentos para o fundo da garganta antes de os engolir, o que pode aumentar a probabilidade de que a presa entre no sistema digestivo sem grandes danos.

Isso ajuda a explicar como um anfíbio extremamente tóxico – a Taricha granulosa, um tipo de salamandra – consegue sobreviver após ser engolida por uma rã.

Ao entrar no estômago da rã, as toxinas liberadas pela salamandra matam o predador antes que seu suco digestivo comece a funcionar.

A partir daí, o anfíbio só precisa sair pela boca da rã morta.

Porta dos fundos
Mas a cobra-cega-de-Brahminy não matou seu anfitrião e ainda seguiu um caminho muito mais longo, através do intestino, para sair do sapo.

A cobra pode estar melhor equipada do que a maioria das espécies por ter um corpo comprido e esguio de poucos milímetros de comprimento.

O’Shea diz acreditar que a cobra tenha se arrastado pelo intestino do sapo em vez de simplesmente ter sido carregada pelas contrações musculares que empurram os alimentos.

Um fator que poderia ter facilitado esse trajeto são os hábitos alimentares do sapo.

Pode ser que ele não tenha comido muito nas horas antes de abocanhar a cobra, o que significa que o caminho pelo seu intestino poderia estar vazio e ser feito mais rapidamente, reduzindo a exposição da cobra-cega aos ácidos digestivos.

Mas sua pele provavelmente foi sua melhor proteção.

As escamas unidas estreitamente e em sobreposição que ajudam as cobras-cegas a se movimentar na terra provavelmente bloquearam os sucos gástricos, impedindo que chegassem a seus tecidos e órgãos delicados.

É provável que o maior problema que a cobra-cega tenha enfrentado tenha sido a longa falta de oxigênio.

Os pesquisadores não sabem quanto tempo a cobra levou em sua viagem pelo intestino do sapo. Mas, ainda que a tenham visto sair de lá com vida, ela morreu cerca de cinco horas depois.

Menos oxigênio
Os caracóis podem ser viajantes gástricos melhores que as cobras-cegas, já que conseguem viver com menos oxigênio.

Em estudo publicado em 2011, Shinichiro Wada e seus colegas da Universidade de Tohoku, no Japão, alimentaram pássaros japoneses do olho-branco com caracóis terrestres (Tornatellides boeningi) para ver se eles conseguiriam passar ilesos pelo sistema digestivo.

Cerca de 15% deles sobreviveram à viagem, que levou entre 20 e 120 minutos, revelando pela primeira vez que caracóis terrestres podem sobreviver à digestão por outros animais.

A resistência dos caracóis provavelmente se deve às suas conchas, que funcionam como uma armadura natural.

As conchas das espécies examinadas, de aproximadamente 2,5 milímetros de comprimento, foram recuperadas intactas nas fezes das aves, enquanto as das espécies maiores foram despedaçadas.

Os pesquisadores acreditam que os caracóis também possam produzir uma secreção que fornece proteção adicional ao ambiente ácido, mas essa ideia ainda precisa ser comprovada.

Sobreviventes
Outro inesperado viajante intestinal é uma espécie de verme nematóide chamado Caenorhabditis elegans.

Hinrich Schulenburg e sua equipe da Universidade de Kiel, na Alemanha, encontraram nematóides nos intestinos de lesmas no norte do país.

Minutos depois, eles foram surpreendidos ao encontrar os vermes vivos nas fezes das lesmas.

“Parece que eles são ingeridos por via oral, o que é estranho (que eles sobrevivam), porque as lesmas têm um órgão moedor que poderia destruí-los”, diz Schulenburg. “Também não sabemos como eles sobrevivem ao ambiente ácido.”

As viagens intestinais são raras em animais terrestres, mas parecem ser mais comuns em ambientes aquáticos.

Casper Van Leeuwen e colegas da Universidade de Utrecht, na Holanda, descobriram que alguns caracóis aquáticos adultos continuam vivos depois de passar pelos patos-reais (Anas platyrhynchos).

As fêmeas de uma espécie de ostrácodos (um crustáceo invertebrado) também conseguiram sobreviver no intestino do peixe-ventosa (Gobiesox barbatulus). Os mexilhões também conseguem passar por anêmonas marinhas comuns e evitar a digestão se suas conchas estiverem hermeticamente fechadas.

Propagação da espécie
Considerando que parecem ser razoavelmente comuns, as viagens pelos sistemas digestivos poderiam ser uma maneira importante de transporte para espécies de menor mobilidade, permitindo que elas colonizem lugares mais distantes.

Esse parece ser o caso dos caracóis que Wada e sua equipe observaram. Eles foram recolhidos de Hahajima, uma das ilhas Ogasawara no Japão. Seu padrão de distribuição nas ilhas no entorno parecia fazer sentido apenas para um animal com asas.

E a transferência genética entre populações de caracóis geograficamente distantes também poderia ser explicada pelo transporte intestinal.

A equipe que Wada percebeu que as áreas com alta densidade de pássaros japoneses do olho-branco – espécies nas quais os caracóis eram capazes de sobreviver – também tinham caracóis geneticamente mais diversos.

“Esses resultados indicam fortemente que os caracóis terrestres podem ser espalhados por aves predadoras”, diz Wada.

Um dos primeiros casos de um inseto usando esse tipo de transporte interno para se espalhar foi documentado em 2014 por Jan-Jakob Laux e sua equipe na Universidade de Hamburgo, na Alemanha.

Os especialistas suspeitam que os ovos de um besouro aquático, Macroplea mutica, sejam dispersos pelos patos-reais, já que eles conseguem sair intactos de seu sistema digestivo.

A ampla distribuição desses insetos em toda a região Paleártica (que abrange África, Europa, o norte dos países árabes, a Ásia ao norte do Himalaia, o Japão e a Islândia) é um mistério, já que eles não têm tanta capacidade de locomoção.

Efeito adverso?
Mas se os predadores estão digerindo animais vivos sem saber, isso pode ter algum impacto para sua saúde?

Os parasitas intestinais, por exemplo, frequentemente chegam até um animal pela água e pela comida e se instalam em seus intestinos.

Mas além da relação parasitária que eles estabelecem com os animais, estes “viajantes gástricos” também podem trazer benefícios a seus hospedeiros.

Segundo Hinrich Schulenburg, alguns deles, por se alimentarem de bactérias, podem ajudar a diversificar o microbioma dos intestinos por onde viajam.

A cobra-cega-de-Brahminy, porém, provavelmente causou pouco impacto no sapo que a comeu, para além da estranha sensação de ter um animal se movendo dentro de seu estômago e intestinos.

“O sapo só pareceu estar um pouco envergonhado”, brica O’Shea. Afinal de contas, ele tinha uma cobra saindo de seu traseiro.

Sandrine Ceurstemont

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