Carlos Lima
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Religião
Carlos Lima | Publicado em 26/04/2018 às 10:57:37

Bispo fala que os dano moral é irreparável, depois de passar 30 em prisão

Bispo fala que os dano moral é irreparável, depois de passar 30 em prisão André Coelho

Os 30 dias passados na prisão, dormindo em um colchão no chão de uma cela, fazem o bispo dom José Ronaldo Ribeiro, 61, lembrar o que ele chama de “vendaval” provocado na sua vida após ser acusado de chefiar o desvio de ao menos R$ 1,5 milhão da diocese de Formosa, a 280 quilômetros de Goiânia.

“Houve um prejuízo, um dano moral irreparável”, afirmou ele, uma semana depois de ser solto para responder ao processo em liberdade.

Acusado de chefiar o desvio de dinheiro proveniente de dízimos e doações de fiéis, o bispo foi preso, em março, pela Operação Caifás, do Ministério Público de Goiás.

Também foram presos, na ocasião, o vigário-geral da diocese, monsenhor Epitácio Cardozo Pereira, o juiz eclesiástico Thiago Wenceslau, três padres e dois supostos laranjas. Desde então, a defesa de dom José fez oito pedidos de liberdade no Judiciário. No entanto, todos só foram soltos após a Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás conceder o habeas corpus, no último dia 17.

Acompanhado de dois de seus oito irmãos e de um seminarista, o bispo recebeu a reportagem na terça-feira (24), na casa episcopal, bem ao lado da catedral da cidade, onde ele tem passado o dia.

Vestido de batina e com crucifixo pendurado no pescoço, ele sentou-se em um sofá na sala, bem de frente para a capela improvisada na residência. “Só esperar em Deus que tome a nossa defesa e possa amenizar os abalos da consequência de tudo isso.”

No mesmo dia ele havia recebido a visita de solidariedade de um representante da Embaixada do Vaticano no Brasil.

Dom José negou a existência de um suposto esquema de corrupção na cúria de Formosa. “Não existiu. De jeito nenhum.”

Na Igreja Católica, um bispo tem poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e toda a responsabilidade da diocese está nas mãos dele, como patrimônio, sacerdócio, finanças e trabalho pastoral.

“Que interesse eu teria em formar uma organização para usufruir daquilo que tenho responsabilidade de administrar? É uma coisa sem pé nem cabeça”.

Ordenado como padre há 33 anos, 11 deles atuando como bispo, classificou as acusações de “infundadas”.

“Não houve materialidade de nenhuma delas comprovada. Acho até estranho eu ter que falar de uma coisa que quem deveria provar é quem acusou. A gente fica meio pasmo diante disso.”

Ele diz que as acusações partiram de um grupo de padres que discordam do seu estilo de atuação, baseado, conforme disse, na comunhão com o magistério da igreja.

“Essa é a minha linha. Não é que eu seja de esquerda, de direita, progressista ou conservador. Quero ser fiel à missão que a igreja me confiou.”

Dom José afirmou, também, que viu de forma positiva a decisão do papa Francisco de nomear o arcebispo metropolitano de Uberaba (MG), dom Paulo Mendes Peixoto, como administrador apostólico da diocese de Formosa.

“Não foi punição ou intervenção. Foi um apoio.” No entanto, ele está impedido de atuar administrativamente até ser resolvida a sua situação na Justiça.

“Estou impedido. Se a gente reassumir, retomar as atividades, enquanto está essa coisa no meio, isso não nos deixa tranquilos. Cria uma situação meio desconcertante. É melhor que isso chegue ao fim para que as pessoas saibam o resultado.”

O bispo ainda criticou o que definiu de ingerência do Ministério Público na igreja. “O Estado é laico. Quando o Estado extrapola os limites da igreja, está desrespeitando a própria igreja”. Ele disse que, apesar disso, vai colaborar com a Justiça.

O promotor Douglas Chegury, que coordenou a operação, afirmou que o Ministério Público não exerceu nenhum tipo de ingerência nos atos internos da igreja.

“Os fatos apurados na Operação Caifás certamente terão consequências tanto no âmbito interno da igreja, a Santa Sé, por meio da aplicação do Direito Canônico, quanto no âmbito criminal. Os crimes violaram também a legislação penal brasileira”, afirmou.

O advogado Bruno Opa, que defende quatro religiosos e os dois empresários apontados como supostos laranjas, disse que vai provar a inocência de todos eles.

A reportagem não conseguiu entrevistar os demais acusados. O processo tramita na comarca de Formosa.

Uma investigação da igreja também está em andamento e usa as provas coletadas durante as investigações para apurar a existência de crimes.

Cleomar Almeida

 

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