Carlos Lima
Hoje dia 15/12/2017 às 00:46:44

Nacional
Carlos Lima | Publicado em 17/11/2017 às 15:12:59

A elite e a relativização do crime

A elite e a relativização do crime O Mal da Indiferença

No final da entrevista em que disse ter medo do monstro bolsonariano que ajudou a criar – Kiko Nogueira, no DCM, mostra como isso é verdade – Fernando Henrique Cardoso revela não ver crime de responsabilidade no impeachment de Dilma. Para ele, é uma questão política, ao justificar seu apoio à ruptura da ordem democrática.

FHC disse que relutou em apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, mas mudou de ideia quando houve a paralisia do governo. De acordo com ele, a única saída possível para esse tipo de situação em um regime presidencialista é o impeachment. O ex-presidente afirmou ainda que o afastamento é uma decisão política, ainda que amparado em base legal – no caso, o desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal.
“Isso é um crime tremendo? Não, muitas pessoas fizeram (o mesmo). E por que não (foram afastadas)? Porque essas pessoas não estavam em uma frágil posição de poder e a consequência não foi a interrupção do processo de tomada de decisões. É uma questão política.”

A confissão desabrida de que a condenação da ex-presidente – e a ruptura com a legalidade e a legitimidade democráticas – era justificável guarda (e nem tão “no fundo”) a mesma ideia que têm os grupos violentos  também propagam ideias de que o que supõem ser “o bem” que justifica a quebra das regras legais que regulam o convívio civilizado.

O noticiário, hoje, sobre a existência de uma “turma da massagem“, que daria surras, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em ladrões, pedintes, moradores de rua e outras pessoas marginalizadas, é um exemplo deste relativismo. Espancá-los se justificaria também pela “paralisia do Governo” em tirá-los da rua e assegurar a tranquilidade da população.

O degrau de quebra da legalidade que Fernando Henrique admite  ter sido necessário subir faz parte da mesma escada que, no ápice, leva a isso e, no final, a fatos como o assassinato de mulher que morava nas calçadas de Copacabana.

Justificam-se pelo “bem público” que acreditam encarnar e exercitam as próprias razões e pelo desprezo ao direito dos outros.

O direito do outro é apenas “coisa de preto”, ou de pobre, ou de nordestino, ou  de veado, ou de comunista.

O negrinho amarrado ao poste da Rachel Sheherazade, o  “senta o dedo” e o “baixa o porrete” dos programas de rádio e TV, a liberação da posse e porte de arma para “o cidadão poder se defender” ou do “blabloquismo” com o qual muita gente foi tolerante têm o mesmo estofo ideológico  daqueles “pelos meus filhos, pelos meus netos, pelo Brasil, eu voto sim!” .

Bang! Bato e mato em nome da sociedade.

Em nome da sociedade como ela é, com suas desigualdades, a preservação do status quo, para o qual mobilizam as tropas da classe média, sempre dispostas a se julgarem “superiores” e repetirem o discurso que a elite repete e ensina.

Fernando Henrique reclama que Bolsonaro queria fuzilá-lo, embora ele próprio admita que o fuzilamento – formalmente legal – de um mandato presidencial se justifica, pelo bem do país.

Os processos de ódio, num indivíduo ou numa coletividade, são autofágicos, acabam por devorar aqueles que os ajudaram a produzir e, adiante, aos seus encarnadores.

Mas, até lá, destroem, matam, infelicitam.

Por Fernando Brito

Comentários

comentários

Veja também