A brutalidade que nos governa e o racismo que ela comporta

Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on google
Share on linkedin
Share on email
A brutalidade que governa

Esta semana mais um negro pobre foi morto. Chamava-se João Alberto Silveira Freitas. Não foi morto por bandidos na periferia, não foi morto em confronto com a polícia depois de um crime, não foi morto por doença ou fome, não foi morto por acidente ou acaso, não foi morto em um lugar ermo e em circunstâncias desconhecidas.

Não foi morto de nenhuma das formas tradicionais com que os negros costumam ser mortos neste país de desigualdade e preconceito. Não. Foi morto a pancadas. Em um supermercado. Sem que estivesse cometendo crime algum. Na frente das câmeras.

Foi um assassinato-show, sem pudor, disfarce, não mais protegido pela noite e pelo segredo como se costumava fazer. A mensagem foi de que não se precisa mais disso para matar, na porrada, um negro pobre e da periferia. A monstruosidade perdeu a vergonha, o recato.

Para mim, o recorte mais memorável da eleição americana de novembro foi uma declaração. Não faltaram declarações impactantes, mas a que ficará para sempre na minha memória para condensar o significado daquela eleição foi um desabafo, comovido e ao mesmo tempo firme, de Van Jones, negro, advogado, escritor e comentarista da CNN americana.

Jones dizia que naquela manhã estava sendo mais fácil para um pai que diz aos seus filhos que ter caráter, dizer a verdade, ser uma boa pessoa, tudo isso importa; que era mais fácil dizer para um muçulmano ou um imigrante que ele não precisa mais ficar preocupado depois de passar anos à mercê do arbítrio de um presidente que não o queria por lá e que poderia enviar os seus filhos embora a qualquer momento e sem qualquer razão.

Van Jones registrou em seu desabafo o enorme sofrimento de minorias em um governo de extrema-direita.

“Sabe”, disse ele, “o ‘eu não estou conseguindo respirar’, não foi só George Floyd, isso veio de muitas pessoas que não estavam conseguindo respirar.

Todos os dias você acordava com esses tuítes de Trump, e ia a uma loja, e todos esses apoiadores dele que antes tinham vergonha de mostrar seu racismo, foram ficando cada vez mais horríveis, mais agressivos com você e aí você começava a ficar preocupado com seu filho, sua irmã.

Ela não podia mais ir a um supermercado e colocar as compras no porta-malas sem alguém falar alguma coisa horrível para ela. E você gasta tanta energia vital tentando simplesmente aguentar. E essa é a questão: é o momento de a gente conseguir alguma paz, de conseguir começar de novo”.

Van Jones certamente não quis dizer que o racismo, a xenofobia, a islamofobia, a homofobia e tudo o mais que faz parte do ódio socialmente autorizado tenha sido inaugurado com Trump.

O que ele estava dizendo é que foram anos regressivos, em que a pedra dos direitos civis, da tolerância, e do reconhecimento do outro, que com esforço e sofrimento de tantos se conseguiu empurrar por um bom trecho da montanha acima, tinha rolado ladeira abaixo.

Que os monstros da intolerância tinham sido liberados das coleiras e focinheiras durante o turno de guarda da extrema-direita ao poder.

A extrema-direita, como se sabe, consiste naquela posição política e ideológica que vê aspectos fundamentais e irrenunciáveis da democracia liberal como estorvos ao seu ideal de sociedade.

A direita republicana é uma posição que quer um Estado mínimo para, creem os seus defensores, preservar a liberdade das pessoas de viverem como melhor lhes aprouver, enquanto a extrema-direita quer um Estado enorme, monstruoso, que invade a vida das pessoas para lhes solapar as liberdades.

A extrema-direita é, na verdade, um vírus que entra no sistema do Estado liberal-democrata para atacá-lo e para convertê-lo em um Estado autoritário, incapaz de acolher a divergência e de assimilar as diferenças internas, incapaz de respeitar e de fazer as liberdades e o direito de os outros existirem.

No caso brasileiro, a extrema -direita que chegou ao poder adotou um discurso racista muito antes de imaginar que um dia teria o seu principal líder político na presidência da República.

Não vou ficar aqui especulando se os Bolsonaros e os bolsonaristas são ou não racistas, porque esta é uma acusação fácil demais e da qual qualquer acusado pode se defender apenas dizendo que não, não é assim.

Concentro-me no que é factual: o racismo de inúmeras declarações públicas de Bolsonaro ao longo da sua vida, o racismo de várias das suas atitudes. Essas são coisas inegáveis.

O racismo, a misoginia, o machismo, a homofobia – esses comportamentos antissociais mais elementares e mais incompatíveis com um padrão avançado de civilidade, democracia e respeito à dignidade humana – sempre estiveram em casa nas declarações de Bolsonaro, sem filtros nem pedidos de desculpa, bem como nos discursos e nas atitudes do bolsonarismo.

Tanto é verdade isso, que na inauguração do seu mandato, em janeiro de 2019, Bolsonaro sequer tentou dissimular este aspecto da sua agenda. Antes, destacou com toda clareza e só não o viu quem não quis:

“É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil. E me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

Bolsonaro declarou que no seu turno de guarda estava abolido o “politicamente correto”, o que quer dizer que ali se encerrava a era da busca de um discurso respeitoso das minorias políticas, de um esforço de autocontenção para não reproduzir ou incentivar o preconceito social contra grupos estigmatizados.

Em suma: em janeiro de 2019, empossamos na presidência do país justamente aquela figura dos nossos pesadelos infantis do tempo da escola: o garoto fortão, cruel e sem limite moral que faz do seu projeto de vida infernizar os homossexuais, insultar os gordos, xingar as mulheres, humilhar e ofender os negros e bater em quem achar que o que ele faz não está direito.

A declaração do fim do que a extrema-direita chama de “politicamente correto” significou basicamente um salvo-conduto para todo tipo de preconceito e discriminação, inclusive o racismo.

Quem imaginou que poderia ser outra coisa? Ou alguém não tinha ainda entendido que o ódio racista estava sendo empossado naquele mesmo dia?

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)

OUTRAS NOTÍCIAS