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Rompidos com Bolsonaro, caminhoneiros sofrem com alta do diesel e falsas promessas

Caminhoneieros rompidos com Bolsonafro

Quatro anos após a histórica paralisação de dez dias, que travou o país em maio de 2018 e deixou trôpego o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), os caminhoneiros viram suas pautas serem abandonadas pelo atual presidente Jair Bolsonaro (PL), que foi apoiado pela categoria nas eleições daquele ano, e não conseguem avançar na articulação de uma nova greve.

A principal bandeira do movimento de 2018 era a elaboração de uma tabela com o cálculo do valor mínimo para fretes rodoviários que norteasse a relação comercial entre os caminhoneiros e contratantes.

Ela foi criada e sancionada por Temer logo após a paralisação, em 8 de agosto de 2018, sob o nome de Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Carga.

No entanto, os caminhoneiros denunciam que a lei não tem sido aplicada nas rodovias do país.

“Infelizmente, o governo Bolsonaro, através do ex-ministro (da Infraestrutura) Tarcísio (de Freitas), fizeram promessas vazias e agora o prejuízo ficou conosco.

O piso mínimo do frete está vigente, mas até hoje não saiu do papel a fiscalização eletrônica, não saiu do papel o DTE (Documento de Transporte Eletrônico), é tudo conversa fiada”, critica Wallace Landim, conhecido como Chorão, líder das paralisações de 2018 e presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (ABRAVA).

A falta de fiscalização, de acordo com Chorão, deixa as empresas em vantagem na negociação do frete.

Com essa inferioridade na transação, os condutores autônomos estão preferindo trabalhar para grandes empresas do setor, desarticulando a categoria.

“Hoje, o caminhoneiro que é pai de família prefere trabalhar para os outros do que correr o risco de tomar prejuízo sozinho na rodovia.”

Fiscalização

Chorão afirma que após diversas reuniões com o ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas (PL), pré-candidato ao governo de São Paulo, a categoria não obteve resposta sobre o as propostas de implementação de mecanismos para aumentar a agilidade da fiscalização.

“A gente cobrou um convênio da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF), para que a PRF pudesse fazer a fiscalização.

Mas, até agora, nada. Temos a lei e não existe um talão de multas. Pedimos transparência para a ANTT, mas até hoje eu nunca vi uma autuação”, lamenta Chorão.

Em uma tentativa de se aproximar da categoria, o governo federal publicou, no último dia 17 de maio, a Medida Provisória 1117/2022, que altera a regra para revisão do piso mínimo para frete rodoviário.

Antes, os valores eram atualizados quando a variação do combustível atingia 10%. Com a MP, a cada reajuste que ultrapasse 5% o governo deverá publicar uma nova versão da tabela.

A última planilha publicada pelo governo é de janeiro deste ano.

Desde então, os seguidos aumentos não foram aplicados no cálculo do piso mínimo.

“O governo está completamente perdido. A MP, mexendo de 10% para 5% o gatilho do reajuste do preço do combustível, de uma lei que não tem fiscalização, a ANTT não fiscaliza, serve para o quê?

Estamos entregues, só tivemos promessas e não saiu do papel.”

Na última quarta-feira (29), o governo enviou ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o pagamento de um auxílio-caminhoneiro de R$ 1 mil entre os meses de agosto e dezembro deste ano.

A medida, para Chorão, é “eleitoreira”. “Não precisamos disso, é apenas uma esmola, não há como nem abastecer um tanque cheio de caminhão, não vai mudar nada na nossa vida.”

Colocando diesel na fogueira

Temor dos caminhoneiros à época da paralisação, o preço médio dos combustíveis disparou durante o governo de Bolsonaro e, no dia 24 de junho deste ano, o diesel (R$ 7,67) ultrapassou, pela primeira vez desde o início da série histórica da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o valor da gasolina (R$ 7,59).

Quando a categoria parou, em 2018, o preço do litro do diesel era de R$ 3,768. Para Chorão, os sucessivos aumentos mostram o descaso do governo com os caminhoneiros, que dependem do combustível para trabalhar.

“Em 2018, nós paramos por muito menos. Nosso maior erro, em 2018, foi não ter lutado pelo fim do PPI (Preço de Paridade de Importação), que hoje está matando toda a categoria e toda a população.

Estão enganando o povo brasileiro e nossa categoria.

A questão econômica hoje é bem diferente, hoje temos mais responsabilidade do que naquela época. Calados, não ficaremos. Temos mais um aumento agora e não tem jeito, vamos ter que parar para pressionar o governo federal e a diretoria da Pretrobrás.”

Os aumentos recentes pioraram a relação de Bolsonaro com a categoria e os caminhoneiros, aliados de primeira fileira do presidente nas eleições de 2018, parecem ter abandonado o barco para o pleito de 2022.

“Eu estou em São Paulo agora. Por onde tenho andado, percebo que muitos, assim como eu, se arrependeram de ter acreditado no Bolsonaro.

Hoje, eu vejo que é 70% (contrários a Bolsonaro) contra 30% (favoráveis a Bolsonaro), sendo que esses 30% devem sofrer da síndrome de Estocolmo”, encerra.

Procurados, o Ministério da Infraestrutura e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) não responderam até o fechamento desta matéria. Caso enviem suas manifestações, esse texto será atualizado.

Igor Carvalho

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