Aos 85, Luiza Erundina critica a “nova política”, fala de preconceito contra idade e esperança pós-pandemia

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LUIZA ERUNDINA

Trinta e dois anos após ser eleita pelo PT para comandar a maior cidade do país, em 1988, Luiza Erundina de Sousa, paraibana de Uiraúna, volta a disputar uma eleição para a prefeitura de São Paulo.

Desta vez como candidata a vice na chapa do PSOL encabeçada pelo filósofo, professor e líder do Movimento Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos.

Os cenários da capital paulista do fim dos anos 1980 e o de agora são semelhantes. “Os problemas estruturais continuam os mesmos”, diz a deputada, que está em seu sexto mandato na Câmara.

Naquele ano, o país vivia uma crise profunda de desemprego, recessão, manifestações populares, insatisfação com a classe política e muita, muita gente vivendo na rua. Tudo agravado pela hiperinflação, que naquele ano fechou em 980%.

Desemprego, recessão, manifestações populares — hoje puxadas por entregadores por app — insatisfação com a classe política e aumento expressivo de pessoas em situação de rua seguem presentes no cenário de 2020. Tudo agravado por uma pandemia que em quatro meses matou mais de 90 mil brasileiros em decorrência do coronavírus.

Tanto Erundina quanto Boulos acreditam que esta não será uma eleição para se discutir buraco de rua, e sim as contingências nacionais.

Aos 85 anos, a ex-prefeita se prepara para uma campanha diferente, sem corpo a corpo, enquanto acompanha votações-chave no Congresso para minimizar os impactos da pandemia. “Nunca trabalhei tanto quanto nesse período”, diz.

Em sua casa em São Paulo, de onde não sai nem para a área comum do prédio, Erundina afirma, por telefone, que à lista de preconceitos que teve de enfrentar ao longo da trajetória política se soma agora um novo item: a idade.

Jorge Araújo/Folhapress

O preconceito se manifesta, segundo ela, dentro do próprio partido e também nas discussões que costumavam ser realizadas no Congresso. “As pessoas tratam a velhice como um defeito. Dizem: coitadinha.”

Ela contesta a associação implícita entre juventude e “nova política”. “Tem até partido chamado Novo. Mas eu nunca vi tanta cabeça velha. Não tem nova política coisa nenhuma.”

Em pouco mais de uma hora de entrevista, gravada no sábado (25), ela se mostrou cética em relação ao alcance das frentes amplas em defesa da democracia, atribuiu a eleição de Jair Bolsonaro, a quem chama de “farsante”, ao baixo nível de consciência política, criticou a gestão tucana em São Paulo e lamentou a tentativa de apagamento do educador Paulo Freire, que foi seu secretário da Educação.

“O ex-ministro [Abraham Weintraub] que fugiu do Brasil, corrido, só faltava decretar o assassinato de Paulo Freire, mesmo ele morto.”

Erundina conta ainda como tem se adaptado ao mundo digital e sentencia: “Ao vivo é mais fácil de você desmascarar aqueles salvadores da pátria que aparecem na televisão e no rádio, bonitinho, arrumadinho”.

Esta não será a primeira vez que Erundina tenta voltar à Prefeitura de São Paulo. Na última disputa, em 2016, já filiada ao PSOL, ela recebeu 3,18% dos votos e ficou em quinto lugar na disputa que elegeu João Doria (PSDB).

Veja os principais trechos da entrevista:

Trabalho remoto.

Nunca trabalhei tanto quanto nesse período agora. O trabalho na Câmara continua. No modo virtual, mas as reuniões, as sessões, vão até a madrugada. Começa muito cedo e nunca a Câmara votou tantas matérias quanto nesse período.

Matérias importantes, de interesse da população, referentes à pandemia da Covid-19, medidas de proteção, de assistência, de apoio às pequenas e médias empresas, medidas para proteger os empregos.

Tem sido um conjunto de matérias que têm sido aprovadas, por sinal quase por unanimidade. As vítimas não são só da infecção, o contágio com o vírus, mas do impacto na economia, no mercado de trabalho, nas condições de vida da população.

Enfim, trabalhamos muito, há uma demanda aqui na cidade muito grande para o nosso mandato.

Por exemplo, conseguimos, através do Ministério Público, que a prefeitura destinasse pensões, hotéis, para populações de rua. É um número muito elevado de moradores de rua. E já morreram muitos.

São iniciativas que passaram pelo nosso mandato e que requerem nossa atenção.

Não tive um dia, um fim de semana, que eu posso dizer que não tenho nada para fazer. Tudo se mistura com o trabalho doméstico. Eu dispensei a moça que trabalhava aqui, uma vez por semana, mantive o salário até agora. Ela mora na periferia e vir todo dia era um risco para ela e para mim.

A gente assume também as tarefas domésticas. Isso sobrecarrega, evidentemente. Por outro lado, ocupar-se ajuda nesse momento de estresse, de ver o agravamento da crise, as pessoas procurando emprego. Enfim, eu nunca trabalhei tanto.

A última vez que saí de casa foi há mais de três meses. Moro em um prédio sem muito espaço. Tem [na área comum] equipamentos de exercício, mas sequer tenho tido condições de fazer. Não há férias. Pelo contrário. E muita preocupação. Tenho dificuldade até para acompanhar os jornais, o noticiário. Por falta de tempo.

Jair Bolsonaro

Esse presidente é um farsante. Ele vive em um teatro contemplando a si mesmo, como Narciso. O país está à deriva. O Congresso tem reagido positivamente, mas não é suficiente. Quem opera a política pública, no sentido geral, é o Executivo. O Congresso tem trabalhado. Aprovamos o auxílio emergencial, autorizando o Executivo a liberar os recursos. Os recursos existem. Esse dinheiro não pode ficar nas reservas.

Isso é interesse dos credores internacionais. Essa dinheirama tem que ser liberada. É o papel do Estado. Não é favor nenhum numa situação de pandemia. Veja o que os outros países estão fazendo. Então, tem muita gente passando fome, sofrendo, adoecendo. Há muitas pessoas adoecidas por depressão por conta da falta de perspectiva.

As ideias que circulam por aí, defendidas por esse governo, não são nem do século 20. É do século 19! É demais. É um estrago que fica nas gerações de hoje muito grave.

Erros na pandemia

[As autoridades] Não fizeram o dever de casa. Nem na fase preparatória nem durante [a pandemia]. Abriram demais o isolamento social, já está tudo funcionando, no fim de semana é praticamente normal o trânsito das pessoas. Elas acreditam ou se sentem imunes.

Mas ninguém é imune a essa pandemia. Já são mais de 80 mil pessoas mortas [em uma semana já atingiu 93 mil]. E não se tem uma previsão de quando a curva dessa infecção vai cair.

Quando diminui numa cidade, aumenta em outra. A infraestrutura não foi adquirida no tempo certo. As pessoas ficam nas filas aguardando uma chance de se salvar. É um negócio dantesco.

Nunca vi coisa mais terrível como a que estamos vivendo nesses dias. Precisamos ter muita compaixão das pessoas, do momento que todo o mundo está vivendo. Tem sido uma dor muito grande, tenho me mantido bastante firme, cuidadosa, porque sou do grupo de risco, e ajudando naquilo que posso. Imagina essas pessoas que estão perdendo os familiares não poderem nem estar presentes ao momento da partida deles?

Outros na fila dos hospitais públicos tentando ver se outro libera o leito para poder se salvar. São milhares de casos. Está subestimado o número de mortos, o número de infectados. Um governo que esconde a verdade, que não se prepara para enfrentar essa verdade, que governo é esse?

O governo é omisso, atenta contra o interesse público do ponto de vista da saúde pública, que não acerta na escolha de um ministro da Saúde, que não valorizou o SUS, não deu sustentação ao SUS.

A saúde pública, se não existisse, morreria muito mais gente. Espero que depois disso se veja o SUS com outro olhar, com outra valoração, para garantir acesso de todos à saúde, à vida, ao tratamento.

Adriano Vizoni/Folhapress

“Nova política” e etarismo

Minha vida não deve ser muito longa mais, mas vivo cada dia como se fosse o primeiro, e como se fosse o último.

Eu tenho dito que só faltava eu ser negra para completar as razões pelos quais eu sofro, ou sofri, muito preconceito, muita discriminação, muitos ataques. Sou nordestina, mulher, de esquerda, solteira. Só faltava eu ser negra. Eu teria mais um motivo para lutar por alguma coisa. Contra o preconceito racial.

E agora eu tenho mais um preconceito: a idade. Imagina quanto isso é forte. Dentro do próprio partido, de alguns companheiros obtusos e que também usam [preconceito] na disputa política, porque não pensa que não tem disputa política interna, e como tem.

Por mais que a gente lute por igualdade, por uma sociedade mais igualitária, mais justa, mais fraterna, mais solidária. Lamentavelmente, isso passa pela formação das pessoas. E a formação das pessoas não passa apenas por uma ideologia que a pessoa eventualmente abrace.

Hoje eu tenho mais um fator para lutar. É para demonstrar que a velhice não é uma doença, muito menos um defeito. As pessoas tratam a velhice como um defeito. Dizem: coitadinha.

Nos eventos que acontecem lá na Câmara, ou aconteciam, antes desse momento grave, como conferências e seminários para debater a velhice, o tema era sempre a doença, o cuidador, onde o velho vai ficar. E eu me revoltava.

Dizia: sou velha, estou com essa idade, mas eu não vejo a velhice dessa forma. Vejo a velhice como alguém, não só porque tem experiência, mas que tem energia. Que é mais maduro, já teve mais tempo para errar e para corrigir esses erros.

Velhice não é uma doença, eu insisto isso. Não é um defeito. Todos, se tiverem a sorte, e eu estou tendo, vão chegar a esse estágio. E como vão enfrentar?

Vão ter preconceito da mesma forma que têm hoje como jovens?

E, lamentavelmente, na política, tem os novos lá na Câmara. Houve uma renovação muito grande, mais de 40% da Câmara. Estou no sexto mandato. E tem até partido chamado Novo.

Mas eu nunca vi tanta cabeça velha. Tem muito jovem. Com certeza, cresceu muito o número de jovens. Não só no Partido Novo, mas também nos outros partidos. Lamentavelmente, a juventude em número de anos não corresponde àquilo que precisa para ter maturidade política. A generosidade política. A compreensão do outro, independente de ele ser seu adversário político.

Adversário político não pode ser inimigo. Ele é apenas um adversário que tem ideias muitas vezes opostas, antagônicas. Não tem nova política coisa nenhuma.

Não estou dizendo que a idade não tem limites. Limites físicos, limites de mobilidade. Porém a tua cabeça não tem limites.

Meio ambiente

O homem, o ser humano de modo geral, sem dúvida têm uma diferença fantástica. E por isso tem ainda mais responsabilidade na preservação da natureza, nos direitos da natureza. A Terra é um ente vivo.

E como tal tem direitos. E como se desrespeita os direitos da natureza, da terra, das florestas! Da água pura para todo mundo. Os indígenas estão sendo dizimados. Por falta de uma política de saúde indígena decente, humana.

É tudo isso que está em xeque, que está em debate, e que está no quadro da reflexão, inclusive aproveitando o espaço da disputa eleitoral para, em vez de ficar batendo, criticando, e desqualificando adversários, precisamos é aproveitar para elevar o nível de consciência humana, de solidariedade, e de coletividade para a gente ter um mundo mais suportável.

Uma sociedade mais fraterna, mais justa, com pessoas mais humildes, menos violentas, menos egoístas.

Não entendo como pessoas cometem desvios éticos para acumular direitos. Para quê?

Há uma falta de inteligência, na maioria dos seres humanos. Um momento como este é uma oportunidade de se aprender um pouco mais, de se conscientizar, de transformar a si mesmo.

Eduardo Anizelli/Folhapress

Mundo Pós-Covid-19

A violência contra a mulher cresceu muito nesses dias. O machista, o agressor, está mais tempo dentro de casa. Tem a violência contra a mulher, contra criança, contra o idoso, abuso sexual. Então está sendo outro problema que está preocupando muito. O feminicídio.

O que tem morrido de mulher! São coisas terríveis que vão perdurar na vida das pessoas, além das que foram vitimadas pela pandemia. Tudo isso nos preocupa no pós-pandemia. Como é que vai estar esse país sem reservas, sem condições de criar novas saídas?

O mercado de trabalho não absorve mais ninguém. Já está demitindo muita gente. Reduzindo carga horária, reduzindo salário. Ou mantendo a carga horária, mas com salário reduzido para preservar o emprego.

Os dirigentes, quem tem poder, teriam de estar dedicados, neste momento, a planejar o próximo passo. O que vai vir depois? Daqui a pouco, os supermercados estão sendo saqueados, como houve em outros tempos. Na década de 1980, e eu era vereadora, houve muitos saques. Havia muitos desempregados.

Mas os desempregados pobres também criam suas próprias saídas, não como solução definitiva, mas como redução de um dano, digamos assim. Na periferia, eles se juntavam para fazer compras do essencial na central de abastecimento mais barata, para eles dividirem entre eles.

O salário deles era distribuído na comunidade, para a compra coletiva, para que o pouco que eles conseguiam pudesse suprir o essencial para a vida das pessoas. É a solidariedade do pobre com o pobre.

Esse sentimento de solidariedade hoje está expandido pela sociedade. Há um sentimento forte de as pessoas quererem contribuir, ajudar, minimizar a dor, o sofrimento, a tristeza, a pobreza.

Eu tenho expectativa, esperança, que depois dessa pandemia que atingiu o mundo, os mais ricos e os mais pobres, que a sociedade saia melhor. Mais generosa. Que tenha mais compaixão. Que saiba que um ser humano é igual ao outro, e como tal tem direitos iguais. Dignidade igual.

E que, acho que é uma eleição, se a gente aproveitar bem, ela pode realmente melhorar a sociedade. Melhorar o mundo. Melhorar o planeta. É isso que me move. A história dá saltos, a história dá onda para trás, a história é dialética.

O ser humano é capaz de salvar a si mesmo e se reeducar. De se assumir como sujeito histórico, alguém que faz história e não só sofre a história que os outros fazem.

Vida e campanha digital

Acho que tem vantagens e desvantagens. Ao mesmo tempo em que a gente agradece a essas descobertas fantásticas da ciência, da tecnologia. Você ganha em escala, mas perde em sentimento. A relação pessoa a pessoa, olho no olho, o próprio debate político se dá em um outro clima.

Com uma capacidade maior de influenciar, mas do ponto de vista da informação, com certeza ela está muito mais disseminada hoje por esses meios, seja em relação àquilo que interessa imediatamente, no combate a uma pandemia como esta, seja sobre a realidade, como a realidade se coloca hoje, o que cada um tem a ver com esse problema todo que está dado aí, o que cada um também poderia, a partir de si mesmo, contribuir para que as coisas fossem diversas.

A gente não poderia, nem deveria, nem deverá, se expor em atividades e eventos presenciais [na campanha]. O risco é enorme. Não só para cada um que está fazendo campanha, mas pra quem está acompanhando eventualmente e comparecendo a esses eventos.

Tem que ser mesmo através desses meios virtuais. É uma oportunidade de fazer chegar as informações e as ideias e os projetos ao maior número de pessoas.

Por outro lado, a relação presencial não existindo, elas perdem muito em qualidade, qualidade inclusive de convencimento, de formar convicções e transmitir essas convicções.

Ao vivo é mais fácil de você desmascarar aqueles salvadores da pátria que aparecem na televisão e no rádio, bonitinho, arrumadinho. E quando chega lá não tem nada a ver com aquilo que mostrou na propaganda eleitoral.

O presencial é realmente superior em qualidade do que esses meios. Mas ainda bem que a gente tem esses meios. Só que a gente tem de usá-los para o interesse de todos, de forma ética. Não vê as “fake news” aí, o que acontece?

Um horror. Destroem a memória das pessoas, destroem a biografia das pessoas, destroem a honra das pessoas.

E tem que ser limpar isso, mas como os meios são muito revolucionários e muito rápidos em suas mudanças, de repente é uma plataforma que não se conhece, de repente é um aplicativo que não se conhece, e de repente é uma outra inovação.

É o desafio dos tempos modernos. Da sociedade do conhecimento, da informação, da internet. O ser humano tem que acompanhar a evolução que ele mesmo gera. O uso delas é que não é neutro. A ciência, a tecnologia não são neutras.

O uso que se faz delas servem ou desservem a determinados setores da sociedade. Aí entra a questão ética e política.

Adriano Vizoni/Folhapress

Bolsonarismo e rejeição à política

O Estado, como a principal organização política de uma sociedade democrática como a nossa, está esvaziado nos seus governos, na sua estrutura, nas suas práticas, nos seus meios de funcionamentos.

O mesmo vale para os partidos políticos, vale para os sindicatos. A própria instituição família está sendo muito questionada por essas mudanças que estão se dando.

O que se torna mais grave no Brasil, do ponto de vista da negação da política, da rejeição, que responsabiliza e nivela todos os políticos. Mas a política é uma prática de todos.

Você também faz política até inconscientemente. Ao agir e ao influenciar o seu entorno você está fazendo política. A imensa maioria do povo brasileiro tem um baixo nível de formação política, de consciência política.

Como os eleitores que deram a maioria dos votos para o Bolsonaro não compreenderam, com uma avaliação crítica, o que aquele homem era e o que era capaz de fazer?

E tem pesquisas que apontam que ele ganharia em todos os cenários [em 2022]. É um horror. E isso o que é?

É o baixo nível de consciência política.

As escolas não fazem educação política, as universidades também não fazem. As pessoas saem tecnicamente preparadas, cientificamente preparadas, mas humanamente, eticamente, filosoficamente despreparadas.

Por conta disso é que varia tanto o humor da sociedade brasileira em relação à política e aos políticos. Em cada momento é uma reação que corresponde a uma indignação por motivos nem sempre justificáveis, mas também outros justificáveis.

É preciso indagar por que votei no fulano de tal e como, com meu voto, ele virou isso. Ninguém se pergunta isso. Portanto, é um baixo nível de consciência política, de consciência de ser um sujeito político, de que nós temos o governo que nós somos, num certo sentido.

São Paulo ontem e hoje

Os problemas estruturais continuam os mesmos. Há 30 anos, quando eu me elegi prefeita, o país vivia uma crise de desemprego profunda. De recessão profunda, com a inflação de 80%, desemprego em massa, os desempregados saindo para as ruas manifestar sua indignação e pressionando os governos por solução.

Não era um período tranquilo. A cidade era um pouco menor, mas já era imensa. Eram 9,5 milhões de habitantes numa região metropolitana. Os municípios não têm fronteiras separando um dos outros.

As pessoas moram numa cidade, trabalham na outra, acessam os serviços na outra. Deveria haver um planejamento metropolitano na região. Para poder aliviar a demanda sobre as grandes cidades.

As cidades do interior, em vez de adquirirem um hospital, ou instalarem o serviço para população da própria cidade, da própria região, compram ambulância para mandar as pessoas para São Paulo.

Tem um impacto na área da saúde, na área da locomoção, ou da mobilidade, na área de saneamento básico, na área da saúde, sobretudo.

Há uma duplicidade, uma sobrecarga, para cidades como São Paulo. Naquele tempo já havia isso. Por ser um momento de crise também havia uma insatisfação muito grande da sociedade com os políticos, com a política, com os governos.

Havia uma insatisfação generalizada. A eleição se deu dentro de um quadro com aspectos semelhantes como os de hoje.

Havia também muita gente na rua. No nosso governo a gente conseguiu manter uma política de acolhimento à população de rua, sem resolver o problema. Com crise, com desemprego, crise social profunda, de marginalidade social, haverá sempre a população de rua.

Não na dimensão que está hoje. Hoje as famílias inteiras estão na rua, porque não podem mais pagar o aluguel, estão desempregadas. Tem pessoas que trabalham e dormem na rua com a família depois de um dia trabalhado. Há semelhanças de conjuntura daquele momento e o de hoje que explicam, num certo sentido, a rejeição da população pela política, não só pelos políticos.

E [a população] tem toda razão de cobrar, de exigir, de estar indignada com o comportamento das pessoas da política. Mas não podem rejeitar, abrir mão, da política como tal. Porque sem a política não se resolvem os problemas da coletividade.

Sinto um clima de adesão das pessoas, de reencantamento, de voltar a acreditar na política, e em algumas pessoas que estão na política. Então há um momento, um aspecto, que havia naquele tempo e que talvez até explique a minha eleição naquele momento, uma pessoa de esquerda, uma pessoa completamente fora do padrão político tradicional.

E percebo hoje também uma certa semelhança, uma busca das pessoas por alguém que sinalize com alguma esperança de que pode haver mudanças.

Essa cidade é muito poderosa. O seu orçamento é o terceiro maior do país. Dependendo de como você aplica esse recurso, ele pode ter um impacto positivo também nas classes populares. Naquele tempo não tinha nem coleta de lixo na periferia.

Muito menos canalização de córrego sujo, que passava na porta do pobre, o filho dele brincando na lama e no esgoto a céu aberto. Hoje não é diferente. Tem pessoas que, para se proteger da pandemia, não tem água, não tem sabão, não tem sabonete.

Não tem espaço para se isolar socialmente. Nós tivemos que conseguir espaço nas escolas, para que essas pessoas pudessem se proteger de alguma maneira.

Nelson Antoine/Folhapress

Ligação nordestina

Já estou com essa idade [85 anos]. Já fui prefeita dessa cidade. Estou no sexto mandato de deputada, não teria motivos para querer uma tarefa dessas. Mas entendo que ainda tenho uma condição de saúde, graças a Deus, uma experiência acumulada, um vínculo com essa população, essa população confia na gente, tem a gente como uma referência.

Eu cumpro um papel pedagógico, educativo junto a essa população. A maioria é nordestina, como eu.

Em 28 de janeiro vou completar 50 anos nesta cidade. Vim para cá expulsa do Nordeste pela ditadura, para trabalhar como assistente social, como vereadora, como deputada estadual, como prefeita. A minha vida foi junto com essa população.

Ela tem em mim um deles a quem eles possam recorrer para pedir uma orientação, para pedir uma ajuda. Então eu posso cumprir um papel num momento crítico como o que vamos enfrentar ainda daqui para frente, com alguém que também tem muita sensibilidade. São Paulo tem uma liderança política por origem.

Os governantes do estado e da capital não têm exercitado como deveriam o poder político de quem dirige este estado e esta cidade. Todos ficam presos a seus projetos pessoais, eleitorais.

Guilherme Boulos

O [Guilherme] Boulos é uma pessoa formada pelo povo. Ele tinha 17 anos, era aluno da USP, e já trabalhava na periferia com essa população sem-teto. E ele se formou convivendo com essa população, e ele é de fato comprometido com esta causa, dos mais pobres, dos sem-teto, dos desempregados.

O que ele tem feito pessoalmente, e o grupo dele, para ajudar, não só os que estão no movimento, mas com eles juntos, para proteger essa população, levando gel, levando sabão, cestas de alimentos, o que conseguem.

É uma pessoa que tem uma formação, e uma história de vida. É um idealista. Junto com ele, a gente pode, quem sabe, diminuir um pouco o sofrimento dessa gente. E colocar essa cidade a serviço dessa gente.

Convivi com o Boulos na campanha eleitoral para presidente. De lá para cá, no partido, no trabalho dele na periferia, tenho ido muito aos assentamentos onde ele organiza o povo para poder lutar pelo direito à moradia.

A meu ver, ele será um excelente gestor, junto com toda a população. Tem que chamar todo mundo, tem que chamar todas as forças, tem que abrir o espaço para todo mundo opinar, sugerir, participar, controlar socialmente, controlar a gestão, para que dê certo, para que chegue ao último ponto da cidade, com aquilo que a gestão e o governo podem levar a essas pessoas.

Frente ampla

O Brasil não tem uma tradição de frentes. Só em certos momentos agudos elas se formam, mas terminou aquele momento, a frente se dissolve e cada um fica no seu canto, no seu lugar, disputando espaço.

Isso é uma deficiência da nossa cultura política. Quando se trata de disputar o poder, sobretudo numa cidade como São Paulo, ainda fica mais difícil juntar essas pessoas.

Todos se acham com direitos de ser a cabeça [das chapas eleitorais]. Todo mundo diz: eu sou a cabeça, você vai para vice. Fica muito difícil.

Não há um projeto que unifique essas forças. Você não unifica pessoas, unifica ideias. E propostas, projetos. A esquerda ainda não conseguiu no Brasil construir uma proposta unitária, uma proposta unificadora, e com um crivo real da visão da sociedade. Não pode ser um projeto só das lideranças do campo da esquerda.

Tem que ser uma sociedade testada, discutida, refletida e construída junto com quem pensa na sociedade, quem reflete sobre a sociedade.

Então, a dificuldade nossa é essa: no dia que a gente tiver uma compreensão, uma unidade, em torno de alguns pontos, que possa ser uma pauta nacional, com reflexos nas instâncias estaduais e municipais, aí fica mais fácil essa frente, essa unificação.

Em geral essas frentes se fazem por cima, não de baixo. São os mesmos de sempre. As mesmas lideranças. E fica difícil porque cada um é uma estrela que disputa com outra estrela, não tem uma humildade de dizer ‘não sou estrela, não’

Luiza Erundina

Radical, sim. Sectária, não

A sociedade é conservadora. E isso se expressa no Congresso. Na Câmara, de 513 deputados, somos apenas 130. E nem sempre há uma unidade entre nós. Somos 130 votos de oposição que varia. Oposição a quê?

Em São Paulo, essa margem popular onde a gente tem vínculos de vida, e não só vínculo no discurso, mas uma presença histórica junto da população, é conhecida. A minha eleição em 1988 se deveu a esses setores.

E com um preconceito contra mim muito forte, ao nordestino, à nordestina, a quem tinha vínculo com as favelas, e chamavam de ignorante. Mas eles se enganaram. Achavam que eu era despreparada.

Diziam que eu era radical. Radical tem que ser, mas diziam que eu era sectária. Eu nunca fui isso. As pessoas não conseguem ver quando veem através do preconceito. Mas na prática a gente demonstrou que é possível fazer diferente.

Não se faz milagre, evidentemente, mas você vai plantando uma prática política e uma gestão democrática que as pessoas ficam com elas. Nos educadores, no pessoal da área da saúde, da assistência, incorporaram as práticas e as políticas do nosso governo até hoje.

São esses segmentos que estão vindo nos apoiar, querer ajudar, tem expectativa em relação a nossos nomes, nossos projetos. É nesse segmento que a gente tem chance. Não é na elite. De jeito nenhum. Mas parte da classe média vai estar com a gente também, com certeza.

Que não apoia o bolsonarismo, o fundamentalismo religioso, que não apoia o retrocesso em todos os sentidos.

Paulo Freire

Se a maioria opta, num regime democrático, por uma pessoa, um grupo, um projeto que é este que está aí, meu irmãozinho, como essas pessoas pensam a vida, a política, a vida social?

É por isso que não se quer dar a educação crítica a todo mundo. Por isso a dificuldade de se qualificar a educação. Por isso hostiliza-se Paulo Freire, que trouxe uma filosofia da educação, uma pedagogia e uma didática revolucionárias que não só instruem as pessoas, mas lhes dão consciência e formam politicamente.

Mas ele é um condenado no Brasil. Ele foi anistiado e ficou mais de uma década fora do Brasil, foi expulso pela ditadura militar.

E qual era a arma dele?

Era a forma de educar os seres humanos, a formação da conscientização, a formação da autoconsciência do que é um ser humano no mundo, na sociedade, que vê o mundo com seus próprios olhos.

Nunca um educador, um mestre, um filósofo da educação foi tão hostilizado como está sendo Paulo Freire neste governo. Tem três projetos na Câmara para tirar de Paulo Freire o título de patrono da educação brasileira.

O ex-ministro [Abraham Weintraub] que fugiu do Brasil, corrido, só faltava decretar o assassinato de Paulo Freire, mesmo ele morto.

Isso tem razões de ordem histórica, de ordem social, de cultura, ou falta de cultura política. É um desvio de compreensão das coisas. Daí a importância da educação. Da educação no sentido amplo do termo.

Mais Brasília, menos Brasil

Vai ser [uma eleição] muito nacionalizada, sobretudo aqui em São Paulo. Claro que não podemos ignorar as questões locais. Porque é no local onde os problemas ocorrem. É no local que as soluções aparecem.

É no local onde as pessoas se organizam para enfrentar determinadas situações. Não é no abstrato do Estado nem no abstrato da União.

Mas a realidade nacional é que determina [o debate] porque o poder concentrado no Brasil é na esfera da União. Menos no estado e muito menos no município. Isso é uma distorção da federação brasileira.

Nos países de democracia consolidada o município tem a maior fatia do orçamento. Em alguns países da Europa, 70% das receitas da União vão para os municípios. No Brasil não. Não só não tem uma distribuição igualitária, equilibrada de recurso, mas também de poder.

Um município não tem prerrogativa para resolver as questões da economia, do emprego, das políticas estruturais da sociedade. É tudo concentrado na União.

Consequentemente o orçamento do país é concentrado na União, e fica dividido, distribuído a critério do chefe, que está com o poder na mão, e de critérios políticos, eleitorais, ideológicos.

Por isso que eles querem tirar da Constituição a vinculação das verbas públicas, das políticas públicas. Não querem que seja vinculada à Constituição o direito à educação, o direito à saúde, à mobilidade urbana, o direito à moradia.

Tirando da Constituição fica mais fácil, para o gestor que tem o poder central, decidir desigualmente aquilo que deveria ser uma distribuição igualitária. É uma luta estrutural de longo prazo, que não se esgota em quatro anos de governo.

Ou mesmo em oito anos de governo. Por isso precisamos pensar São Paulo para décadas, e não para um governo de quatro ou oito anos.

Jorge Araujo/Folhapress

Lula

Ele não se moveu depois que saiu da prisão. Eu pelo menos não sinto isso. Claro, é compreensível, pelo que ele sofreu e ainda sofre. O caso dele não está resolvido ainda. A liberdade dele não está de todo assegurada.

E o tempo passa. O próprio PT não é mais o mesmo. Tem outras lideranças no partido. Não é uma coisa tão simples de resolver.

Quando havia só o Lula como liderança maior, todos se submetiam, porque inclusive as escolhas das candidaturas em outros níveis passavam por ele. Os partidos também têm que ser democráticos na sua vida interna.

Nas decisões sobre quem vai representar o partido para determinadas tarefas. E precisam formar diferentes quadros. Não podem ficar centrados numa pessoa só. Isso empobrece, o tempo passa.

Temos que avançar muito ainda. Houve uma ditadura de 21 anos, e um retrocesso há cinco anos que está tendo. Isso também traz desgastes para essas questões e para as pessoas envolvidas nela

Gestão Bruno Covas

Lamentavelmente não teve nada diferente. Ele anunciava muita iniciativa, mas até que elas chegassem… Por exemplo, a gente conseguiu, através do Ministério Público, não foi por decisão [própria da prefeitura], que disponibilizassem espaços, pensões e hotéis para população de rua.

Parece que [a prefeitura] criou inicialmente cem vagas. Tem 25 mil pessoas nas ruas! Isso é um exemplo. Outra: os cursos de alfabetização e educação básica para adultos e jovens se espalharam pela cidade desde a época do Paulo Freire, com o Mova (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), que virou Eja (Educação de Jovens e Adultos).

Em vez de aproveitar essas pessoas para trabalhar com os adultos e jovens do programa Mova, ele simplesmente dispensou esse pessoal, sem emprego, sem nada. Tivemos de recorrer ao Ministério Público, à Câmara Municipal. Tem projeto de lei aprovado na Câmara para poder resolver o problema desse pessoal que é essencial. Mas não. Dispensa.

E vai para casa com que recursos para comer? A gente se mobilizou em torno disso. A pressão foi forte e ele teve de ceder. A gestão dele não foi nada diferente. O discurso é diferente, mas a ação concreta não corresponde ao discurso. Dele, do [governador João] Doria. O tucanato deve ser derrubado deste estado. Ninguém aguenta mais os tucanos.

Eduardo Anizelli/Folhapress

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