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Travar a destruição do planeta sem acabar com o capitalismo?

Travar destruição do planeta

A 26ª conferência da ONU sobre as alterações climáticas foi a constatação de uma realidade e de uma impotência: já ninguém nega que o planeta esteja em vias de destruição acelerada, mas, naquele círculo de dirigentes políticos, ninguém apresenta solução alguma.

Por isso tem razão Gretta Thunberg, ao sintetizar as políticas dos líderes mundiais: “Bla, bla, bla”.

Os tempos não estão de feição para o negacionismo tosco, à Donald Trump, porque as realidades se metem pelos olhos dentro: a realidade da pandemia que Trump negava e em parte lhe custou a reeleição; e a realidade das alterações climáticas, que ele negava ao ponto de prescindir das panaceias consignadas nos Acordos de Paris.

Com o seu patrão norte-americano  momentaneamente afastado do poder, até um Rodrigo Duterte se alarma com a pandemia e reage brutalmente ao seu alastramento, como é próprio dos ditadores.

Até um Bolsonaro aparece na conferência de Glasgow a prometer um abrandamento na desflorestação da Amazónia, ao mesmo tempo que os seus jagunços continuam a espancar as comunidades indígenas que impedem a expansão dos grandes fazendeiros e do agronegócio.

Mas o céu vai continuar a cair-lhes sobre a cabeça, a eles e a todos nós, na forma de fenómenos meteorológicos extremos, de vendavais e inundações que não podem ser ignorados como o são os fenómenos mais paulatinos da destruição do planeta.

E vai continuar a cair-lhes sobre a cabeça, porque todos estes políticos, mesmo os mais cordatos, continuam a ser feitores dos ricos que possuem o planeta e já não sabem o que fazer dele.

E todos querem portanto que uma conferência destas se conclua com mais do mesmo, e com um quanto baste de cortinas de fumo e adereços cosméticos, para confundir e desmobilizar a revolta ambientalista que grassa pelo mundo.

Neste contexto, viajarem, grande parte dos líderes mundiais, para a COP 26 em jactos de função é apenas um detalhe simbólico que todos serão capazes de corrigir sem grande custo, logo que comecem a enxergar-se um pouco e logo que algum assessor de comunicação mais avisado lhes sussurre ao ouvido que isto não fica bem na fotografia.

Inversamente, querer à viva força contrastar com estes maus exemplos individuais e fazer disso um ponto programático, é um erro próprio de quem se encontra precisamente num impasse programático.

A própria Gretta Thunberg caiu há tempos nesse erro, ao fazer gala de se transportar para os EUA num veleiro.

E alguns ambientalistas portugueses caíram num erro ainda mais grosseiro, ao organizarem uma manifestação em defesa da ciclovia da Av. Almirante Reis – esse emblema da gentrificação e turistificação da cidade, que é ainda por cima um factor adicional de engarrafamentos e poluição.

Com todos os seus diagnósticos certeiros sobre a hipocrisia dos protagonistas políticos, Gretta Thunberg confronta-se com o problema, ainda não resolvido pelo grandioso movimento das Sextas-feiras pelo Clima, de formular uma alternativa que não passe pela prédica dos bons exemplos comportamentais, e sim pela planificação da economia em função das necessidades sociais – o que nós chamaríamos socialismo.

Cria-se demasiado gado no planeta, com efeitos poluentes devastadores, porque uma parte da população foi educada numa dieta alimentar excessivamente carnívora, porque essa dieta cria um mercado altamente lucrativo?

Talvez.

Está a solução para esse excesso na prédica de uma dieta vegan aos milhares de milhões de pessoas que, na Índia e no Paquistão, só vêem um bife uma vez por ano, com sorte? Certamente que não.

O capitalismo, por natureza, limita o consumo das massas, priva-as de satisfazerem as mais elementares necessidades biológicas e sociais, e, ao mesmo tempo, induz um sobreconsumo fútil, com estratagemas como a obsolescência programada de produtos que poderiam durar décadas e são programados para acabarem no lixo ao fim de poucos meses.

E estas irracionalidades só podem ser erradicadas com uma planificação socialista.

Claro que quem quiser defender o capitalismo inventará sempre alguma tontice para dizer contra o socialismo, como o estafado exemplo de Tchernobyl.

Supondo ainda, só para facilitar a discussão, que Tchernobyl fosse prova da falta de soluções ambientais do socialismo: implicaria isso que o capitalismo tivesse a capacidade de travar a deriva de destruição planetária que ele próprio vem causando?

Para já não falar de um outro detalhe: o regime burocrático que foi responsável por Tschernobyl tem tanta relação com o socialismo como o ortografês tem com o português correctamente falado e escrito. Qualquer semelhança é pura coincidência.

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