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Ato do Prerrogativas com Lula e Alckmin inicia simbolicamente a reconciliação do País

O Encontro

Quando às 21h30, as estridentes e mal posicionadas caixas de som do restaurante Figueira Rubayat, quase na esquina das ruas Haddock Lobo com Estados Unidos, nos Jardins, em São Paulo, começaram a tocar a melancólica “Grândola, vila morena” na noite do último domingo, o evento do Grupo Prerrogativas que homenagearia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contabilizava uma hora e meia de atraso.

Havia quase três horas, contudo, que Lula estava numa ampla sala reservada costurando com a maestria dos grandes estilistas a colcha de retalhos destinada a cobrir o Brasil numa Frente Ampla.

 À mesa, com o ex-presidente convocado a celebrar a própria resiliência na luta por resgatar os direitos políticos e a honra pessoal, estavam ou tinham estado lideranças de movimentos sociais e de partidos políticos diversos como um dos coordenadores do Movimento dos Sem Terra João Paulo Stédile, Vilma Reis e Douglas Belchior da Coalizão Negra por Direitos; juristas ou grandes advogados como Celso Antônio Bandeira de Mello, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Alberto Zacharias Toron, Antônio Carlos de Almeida Castro e um dos anfitriões da noite, Marco Aurélio de Carvalho.

O jovem ciminalista Pierpaolo Bottini, um dos mais bem-sucedidos defensores de alvos da Lava Jato, estava lá junto com o nem tão jovem assim Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, também criminalista que virou uma espécie de porta-voz das prerrogativas defendidas pelo Prerrô; o economista e ex-ministro Bresser Pereira; o ex-deputado e ex-vice-governador paulista Almino Affonso.

Além de um rol de nomes da política contemporânea de amplo diapasão ideológico e partidário: Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação que lidera os cenários mais realistas da disputa pelo governo paulista; Márcio França, que tece um entendimento com Haddad para evitar divergências estéreis na corrida pelo mesmo cargo.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara, e o prefeito do Recife, João Campos, ambos do PSB, escoltados pelo presidente dos socialistas, Carlos Siqueira. Deles depende a condução do entendimento entre França e Haddad.

Marília Arraes, deputada pelo PT de Pernambuco, prima e desafeta do jovem prefeito Campos, também sentou à mesa. Martha Suplicy, que ensaia um regresso aos palanques com apoio de petistas, idem.

Gilberto Kassab, presidente do PSD, não só foi como levou consigo o senador Omar Aziz, que disputará pelo PSD o governo do Amazonas e presidiu a CPI da Covid no Senado. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, o senador Jaques Wagner, os governadores Rui Costa, da Bahia, e Welington Dias, do Piauí, e o ex-senador e o ex-ministro Aloizio Mercadante garantiam o quórum petista em todas as conversas.

Ex-prefeito de Manaus, ex-senador pelo Amazonas, derrotado nas prévias presidenciais do PSDB, Arthur Virgílio fez questão de ir ao evento.

Os deputados fluminenses Marcelo Freixo e Alessandro Molon, construtores de pontes que conduzam a esquerda ao governo do Rio, idem: estavam lá, aparando arestas e se posicionando para receber pontos e nós das tais costuras.

Por fim, sempre ao lado de Lula enquanto o evento se dividia entre o que se especulava ocorrer na sala reservada do Figueira e a evidente tietagem ansiosa do salão do restaurante, o fio dourado da estrela que está a ser bordada: Geraldo Alckmin, o centrado e centrista ex-governador de São Paulo que abandonou o PSDB e só arremata ajustes finais para ser convertido em companheiro de chapa presidencial do petista – ou pelo PSB, o que é mais provável, ou pelo PSD.

Tocada nas rádios portuguesas ao mesmo tempo no 25 de abril de 1974, “Grândola, vila morena” foi a senha para o início do movimento que pôs fim à ditadura iniciada por Antônio Salazar e depôs Marcelo Caetano, o títere do sistema salazarista em Portugal.

Encarcerado em Curitiba em razão dos abusos da Lava Jato, no 25 de abril de 2019, quando se estava completando 45 anos da Revolução dos Cravos, Lula recebeu uma gravação de “Grândola, vila morena” na prisão e dançou na companhia de advogados e carcereiros, batendo os pés como faziam os tenentes, cabos e soldados portugueses, no cubículo em que estava confinado na capital paranaense.

A passagem é narrada na ótima biografia “Lula, vol. 1” escrita por Fernando Morais. A escolha da canção para marcar o fim das articulações reservadas e o início da parte pública da cerimônia do último domingo não foi ironia nem coincidência.

Foi homenagem àquela passagem melancólica que marcou Lula nos seus 580 dias na sede da Polícia Federal em Curitiba.

Rapidamente, o quase fado português deu lugar à vibrante “Anunciação” do pernambucano Alceu Valença.

Ao som “das brumas leves que vêm de dentro” Luiz Inácio Lula da Silva atravessou todo o salão do Figueira Rubayat, lotado por 500 pessoas vacinadas e testadas negativamente para Covid-19 (passaporte de vacina e teste de antígeno eram exigidos na entrada do evento), e se instalou diante do pequeno palco improvisado no restaurante. “Tu vens, tu vens…”, cantava Alceu.

No pequeno palco, projetada ao fundo num telão, a imagem do advogado Sigmaringa Seixas pontificava e parecia explicar tudo. Morto no Natal de 2018, vítima de mielodisplasia (doença que provoca disfunções na medula óssea), Sigmaringa foi advogado de presos políticos na ditadura e exerceu mandatos de deputado federal pelo PMDB, PSDB e PT.

Era um dos grandes articuladores do mundo jurídico. Amigo pessoal de Lula, recusou mais de um convite para ser nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal, mas participou da definição de nomes diversos para vagas nos tribunais superiores.

Quando o ex-presidente foi preso, Sig, como era chamado, acompanhou-o até a carceragem em Curitiba e visitava-o frequentemente até ser impossibilitado de fazê-lo em razão do mal que o vencia. Tendo o anúncio de seu nome aplaudido em respeitosa homenagem dos presentes ao jantar, o semblante sereno e sorridente de Sigmaringa parecia chancelar o que se passava por lá.

Podia-se imaginar ouvir até gritos de “Sigmaringa, presente!”, tal era a pertinácia do semblante de Sig naquele palco.

“Estamos aqui para dizer que é necessário recolocar a fome na centralidade da política”, lembrou Vilma Reis, da Coalizão Negra.

“A fome no Brasil é um projeto. Quem passa fome, pensa mais nos outros”, completou Douglas Belchior ao lado dela e olhando firme para o ex-presidente.

Em seguida, juntos, punhos cerrados emulando gestos de resistência, os dois lideraram os gritos “se Palmares não existe mais, faremos Palmares de novo!”.

Foi forte.Vencida aquela página, o jurista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira. Ex-secretário de Justiça e de Segurança Pública de São Paulo, ministro da Justiça por um brevíssimo período sob o período de Michel Temer na presidência, advogado do próprio Temer (prócer do golpe jurídico/parlamentar/classista de 2016 que depôs Dilma Rousseff), Mariz foi contundente.

“Presidente Lula”, iniciou, sem se furtar jamais a sublinhar que “foi e será presidente de novo”. E Mariz seguiu de forma ainda mais surpreendente para quem o imaginava com ressalvas políticas dado sua trajetória pessoal: “estou aqui para hipotecar solidariedade à sua candidatura. Receba desse velho advogado, da advocacia brasileira, esta promessa: estaremos ao seu lado! Viva o Brasil, viva Lula!”.

Em seguida, Almino Affonso, 92 anos, decano dos velhos e bons hábitos da Política, assumiu o microfone e narrou em público a história de como sugeriu ao ex-presidente que fugisse da ordem de prisão buscando asilo numa embaixada e como a ideia foi rechaçada e comunicada a ele pelo escritor Fernando Morais.

“Você dizia, Lula, que ia buscar provar sua inocência e restaurar seus direitos. Poucos confiavam nisso, poucos tinham a confiança na Justiça que você teve. Abraço-o em homenagem à Justiça”, disse Affonso.

O petista já estava no palco e os dois trocaram um longo e simbólico abraço. Era a hora de Lula assumir o microfone e dar os recados diretos de tudo o que já não cabia em tantos símbolos.

“Eu acredito que a verdade venceu. A verdade vence. A verdade vai continuar vencendo”, estabeleceu ele logo no início de sua fala ao agradecer e homenagear todos os advogados que estavam ali e que haviam lutado diretamente pelo restabelecimento de sua inocência e pela devolução dos direitos políticos que permitirão a candidatura presidencial em 2022 sem quaisquer ameaças jurídicas no horizonte.

“Perseverar, insistir, é um ato político”, disse Lula. “E eu aprendi isso, a perseverar, a insistir, com Dona Lindu, minha mãe, que criou oito filhos sem ter de onde tirar dinheiro, sem emprego, mas, com muita decência”. Dirigindo-se aos advogados Valeska Teixeira, Rodrigo Zanin e Luiz Eduardo Greenhalgh, lembrou a todos: “eu sempre disse que não trocaria a minha dignidade pela minha liberdade”.

Assim, explicava o porquê de não ter pedido asilo em embaixadas, como sugerira Almino Affonso. E prosseguiu: “é hora de perseverarmos juntos para restaurarmos a democracia no País”.

Olhando o pelotão de jornalistas que estavam ali para cobrir o evento, para ouvi-lo, para testemunhar o monumental soerguimento da própria biografia política (que é, já monumental); falando diretamente para repórteres da mídia tradicional, que por muito tempo recusava-se a ouvi-lo como se estivesse cumprindo ordens das cúpulas das redações para eliminar personagem púbçica de tamanha dimensão do dia a dia da História do País; Lula deu o recado sem ódios, sem mágoas, sem recalques.

Porém, convocando a que se fale verdades: “espero que algum dia a grande imprensa faça a própria autocrítica de tudo o que fizeram contra mim”.

Era hora, portanto, de procurar o ex-governador Geraldo Alckmin em meio ao público, encontra-lo com o olhar e mandar um papo reto.

“Não importa se no passado fomos adversários, se trocamos algumas botinadas, se no calor da hora dissemos o que não deveríamos ter dito. O tamanho do desafio que temos pela frente faz de cada um de nós um aliado de primeira hora. É este o verdadeiro motivo pelo qual estamos reunidos aqui esta noite”.

Os aplausos quase não deixaram parte do público ouvir a sequência relevante daquela parte do discurso: “eu não decidi a minha candidatura, porque estou com muito juízo, porque sei da responsabilidade que tenho quando disser que sou candidato a Presidente da República.

Eu sei que o Brasil que vou pegar em 2023 é muito pior do que o Brasil que eu vou pegar em 2003. Não quero brincar com o povo brasileiro. Quem vai decidir essas coisas é o meu partido. E o meu partido tem História”.

Daí, olhando para trás e dando uma piscadela para a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, completou sorrindo: “e tem uma presidente que dá bronca que só ela!”. Novamente mirando Alckmin ao longe, referindo-se diretamente à costura da chapa com o ex-governador paulista como vice, sem querer nem pode ferir as susceptibilidades dos presidentes do PSB e do PSD que estavam ali à sua frente, mostrou que é um craque da alfaiataria de Alta Costura.

“Quem vai decidir se a gente pode se juntar ou não é o meu partido e o partido dele, Alckmin. Então, nós temos de ter paciência. Nada acontece para o vice antes de acontecer para o presidente”. Quem entende os meandros da política, entendeu. E eram muitos os versados nos meandros, ali.

Dados todos os recados, o ex-presidente Lula pôde então ficar à vontade sobre o palco e dar-se ao luxo de fazer algo meramente formal, o que é incomum em sua trajetória… ler um discurso escrito. Focado e obediente, leu cerca de trinta páginas – contudo, o que tinha de ser dito já havia sido dito com palavras, com gestos, com músicas, com a presença marcante de semblantes inesquecíveis como o olhar sorridente de Sigmaringa Seixas no fundo do palco.

Passava um pouco das onze da noite quando começaram a ser entoados os acordes de “Sem Medo de Ser Feliz”, o jingle histórico de 1989. Lula estava lá, descendo do palco para pôr o pé na estrada depois de mostrar que é capaz de unir e forjar alianças inimagináveis.

O ato do Grupo Prerrogativas estava então convertido em revelação de como será possível reconciliar o Brasil.

Luis Costa Pinto

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