Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 20/02/2018 às 14:56:01

A estratégia de Macron para unificar a cultura francesa pela literatura

A estratégia de Macron para unificar a cultura francesa pela literatura O presidente da França Emmanuel Macron Foto: Stefan Wermuth/Reuters

Formado em filosofia e escritor sem nenhum livro publicado, Emmanuel Macron considera a cultura francesa um tesouro nacional e a língua francesa uma joia. “O francês é a língua da razão, a língua da iluminação”, declarou o presidente ao inaugurar o Museu do Louvre de Abu Dhabi, uma galeria de arte com uma cúpula prateada situada uma arenosa região costeira que ele chamou de museu “do deserto e da luz”. Macron prometeu fazer do francês a primeira língua na África e “talvez” no mundo e nomeou uma jovem escritora franco-marroquina, Leïla Slimani para liderar essa missão. Mas em sua campanha para modernizar o francês e abrir o país a escritores de língua francesa em todo o mundo, inadvertidamente Macron ressuscitou uma guerra cultural francesa.

Hoje mais pessoas falam francês em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, do que em Paris. Em 2050, graças ao crescimento da população na África, cerca de 85% das pessoas que falam francês no mundo estarão vivendo no continente africano. Macron promoveu a língua francesa nas suas recentes viagens ao Golfo, China e, especificamente, em Gana, país do oeste africano de língua inglesa cercado por nações de língua francesa. Ao visitar a Tunísia, afirmou que deseja dobrar o número de pessoas aprendendo o francês em 2020.

Macron, 40 anos de idade, vem promovendo a língua francesa de uma maneira bem menos defensiva do que seus predecessores (Jacques Chirac certa vez saiu de uma reunião de cúpula quando um orador francês discursou em inglês). Ele não se preocupa em fazer alguma intervenção em inglês, mesmo em casa. Nem defende os puristas que querem proteger a língua contra mudanças.

O cardeal Richelieu fundou a Academia Francesa em 1635 para tornar o francês “puro”; até hoje a Academia concebe neologismos franceses para termos ingleses, como mot-dièse para hashtag, ou megadonnées para big data. Mas para Macron o francês “não é uma língua fechada” e deve ser fluído. Leia Rabelais, diz ele, para ver que o francês se baseou no dialeto e em línguas vernáculas.

E ele não vê nenhum obstáculo em redefinir a cultura francesa, também. Quando em campanha pela presidência, chocou os tradicionalistas ao declarar que uma única “cultura francesa não existe”. Não é um objeto rígido, em sua opinião, a ser deixado coberto de pó e exibido num armário de vidro. Pelo contrário, a cultura francesa “é um rio abastecido por inúmeras confluências”, tanto por Marie NDyae, escritora senegalesa, como por Victor Hugo.

Foi uma surpresa para os que apreciam seu enfoque liberal o fato de sua posição ser rejeitada por alguns dos escritores que ele procura apoiar. Em janeiro, Alain Mabanckou, escritor congolês que em 2006 conquistou o Prix Renaudot, por seu livro Memoirs of a Porcupine, disse que não participará do projeto do presidente de renovação da Francofonia, um agrupamento dos países de língua francesa. Segundo o escritor congolês, essa instituição, é simplesmente uma “continuação da política externa francesa com relação às suas antigas colônias”, que respalda déspotas africanos e trata os escritores francófonos como “exóticos”. Escrevendo no Le Monde, Abdourahman Waberi, nascido em Djibuti e professor da Georgetown University, exortou a França a virar a página da sua “visão ultrapassada” baseada numa “hierarquia artificial entre artistas franceses e francófonos”.

A francofonia “não deve ser apenas uma instituição criada para salvar a língua francesa; os países francófonos não estão preocupados com isto”, afirmou Mabanckou. “Os africanos não precisam que a língua francesa exista.” Pergunta quantas universidades na França ensinam literatura africana e se queixa de que os estudantes americanos estão mais propensos a estudar esses escritores do que os franceses. O mundo literário francês se apega à visão centrada em Paris, disse Mabanckou, e com frequência não consideram os escritores das antigas colônias parte da literatura francesa, como fazem hoje as editoras e universidades inglesas.

A queixa é de que editores e acadêmicos estabelecidos em Paris, ao tratarem os escritores não franceses como “francófonos”, perpetuam uma forma de arrogância neocolonial em relação a eles e se aferram à propriedade da língua francesa. Alguns desses escritores dizem não acreditar que ainda travam a mesma batalha empreendida por Salman Rushdie há 30 anos contra o conceito de “literatura da Commonwealth”. Mabanckou, que prefere considerar seu trabalho parte da “literatura mundial”, referiu-se a Léopold Senghor, poeta senegalês que foi eleito para a Academia Francesa, basicamente como defensor dos interesses franceses.

Para alguns escritores franceses cuja língua materna é o idioma local, o processo de escrever em francês, língua da antiga potência colonial, ainda desperta sentimentos complexos. Eles querem reafirmar um direito independente de escrever em francês. “Literatura escrita em francês não precisa se chamar literatura francesa para existir”, comentou Véronique Tadjo, escritora da Costa do Marfim.

Leïla Slimani está consciente da controvérsia. E critica os editores em Paris por não investigarem de modo suficiente a escrita de língua francesa fora da França. “A literatura francófona é uma literatura mundial, mas o setor de publicação é muito parisiense. Precisamos descentralizar, deixar de lado essa obrigatoriedade de tudo ter de passar por Paris.” Cidadã de dupla nacionalidade que cresceu no Marrocos e depois se mudou para a França para estudar, ela se sente à vontade nas duas culturas. E quer corrigir a visão da “França no centro e em torno dela uma espécie de periferia que as pessoas chamam de “mundo francófono”. Segundo ela, o objetivo é encorajar o movimento, compartilhar e valorizar a diversidade”.

O próprio romance de Leïla Slimani – Chanson Douce, publicada na Grã-Bretanha com o título Lullaby e nos Estados Unidos como The Perfect Nanny, agraciado com o Premio Goncourt em 2016 – pode ajudar a derrubar essas percepções. E também a emergência de novas vozes, com frequência femininas. No momento as melhores intenções do presidente francês estão colidindo com uma crítica radical de escritores de língua francesa que não querem nem o consentimento e nem a aprovação da França. / Tradução de Terezinha Martino.

Estadão

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