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Nietzsche e as vísceras enturvadas de Bolsonaro

Bolsponaro tripas - verminose

“Não se deve ter nervos, mas um ventre alegre”, preconizava Friedrich Nietzsche em Ecce Homo, de 1888, seu último livro e uma espécie de autobiografia, onde revê maus hábitos e dá sugestões para o bem viver, a partir de um tripé de decisões fundamentais: a escolha do que comer; o lugar de morada e o clima; e o tipo de lazer.

O filósofo alemão centra-se particularmente na nutrição. Num reforço à proverbial concepção de que “você é o que você come”, Nietzsche estabelece um inimigo entranhável a combater: as vísceras enturvadas, origem dos espíritos sombrios.

Impossível ler as dicas nutricionais de Nietzsche sem lembrar do dignatário soluçante e dispéptico que temos no Planalto. É fato que Bolsonaro possui problemas estomacais ou intestinais anteriores ao episódio da “facada”, nunca inteiramente explicados.

Ele próprio vítima de problemas digestivos, é sintomático que em sua obra derradeira, tenha se dedicado ao tema, como um “manual de sobrevivência” para as futuras gerações e como mea culpa pelos erros no aspecto alimentar.

Nietzsche sofreria um colapso um ano após a escrita de Ecce Homo e passaria os últimos dez anos de vida em silêncio, afetado por uma doença mental até hoje não muito esclarecida, e que alguns especialistas atribuem à sífilis. Morreu em 1900, aos 55 anos.

“Me interessa de maneira bem diferente uma questão à qual a ‘sorte da humanidade’ está ligada muito mais intimamente do que a qualquer curiosidade teológica: a questão da nutrição.

A gente pode formulá-la da seguinte forma para suas próprias conveniências: ‘Como é que deves te alimentar a fim de alcançares o máximo em forças em virtù, segundo o conceito renascentista?’”, diz, no livro.

“Minhas experiências são tão ruins quanto possíveis neste âmbito”, ele reconhece. “Estou atônito por ter ouvido essa pergunta tão tarde, por ter aprendido a ‘razão’ tão tarde a partir dessas experiências. (…)

De fato, até os meus anos mais maduros eu sempre me alimentei mal.” Uma dica primordial do filósofo para a boa digestão: “a gente tem de aprender a conhecer o tamanho de seu estômago”.

Nietzsche já enfermo em 1899
Releio estas frases no meu exemplar da edição pocket de Ecce Homo da L&PM, todo rabiscado e  desbeiçado pelo manuseio ao longo dos anos, e me vem à mente o dignatário soluçante e dispéptico que temos no Planalto. É fato que Jair Bolsonaro possui problemas estomacais ou intestinais anteriores ao episódio da “facada” de 2018, nunca inteiramente explicados.

O então pré-candidato chega a aparecer em um vídeo em abril daquele ano com a mulher, Michelle, pousando a mão em seu ventre durante o 36º Congresso Internacional de Missões, organizado pelo grupo evangélico Gideões Missionários da Última Hora, na cidade de Camboriú-SC.

O pastor anima a plateia: “quem aí tem problema no estômago levante o braço”. Instado por Michelle, Bolsonaro ergue o braço direito.

O pastor então pede para o acompanhante colocar a mão no local, e Michelle coloca a mão justamente no abdômen do pré-candidato à presidência. Por último, o próprio pastor Dorgival Timóteo impõe a mão na barriga de Bolsonaro.

É público também que Bolsonaro se alimenta mal. Já se deixou fotografar comendo pão com leite condensado no café da manhã e devorando cachorros-quentes e pastéis em barraquinhas de rua; toma muito refrigerante e farta-se em churrascadas em restaurantes e no Alvorada, hábitos refletidos inclusive nas compras do governo.

Em fevereiro deste ano, foram noticiados gastos de 15 milhões com leite condensado, que nosso enfezado presidente contestou que seriam para “enfiar no rabo da imprensa”, e de 700 toneladas de picanha por seus colegas das Forças Armadas, apenas em 2020.

Outras pistas da crônica prisão de ventre presidencial são as frequentes referências de Bolsonaro a cocô desde o início do mandato.

Para melhorar o meio ambiente, disse, em agosto de 2019, “é só fazer cocô dia sim, dia não que melhora bastante nossa vida”.

“Nós vamos acabar com o cocô no Brasil”, prometeu o presidente a apoiadores no mesmo mês, se referindo à oposição. Sobre a CPI, este mês: “Caguei!” Dias depois, o auge até agora: “Sou igual ao cocô de vocês”, afirmou a seus fanáticos no “cercadinho”.

Se “você é o que você come”, Bolsonaro é uma indigestão ambulante. Não chega a causar surpresa, portanto, que o presidente tenha sido internado no dia 14 de julho com obstrução intestinal, após passar duas semanas soluçando sem parar.

Ao deixar o hospital, Bolsonaro anunciou que dificilmente iria seguir a dieta leve prescrita pelo médico Antônio Luiz Macedo para evitar novos episódios de constipação. “Ele mandou eu seguir a dieta, mas eu não sou exemplo para ninguém quando o assunto é esse”, declarou o presidente.

Curiosamente, Adolf Hitler e Benito Mussolini, os dois líderes autoritários do passado mais comumente associados pelos adversários a Bolsonaro, também sofriam de problemas digestivos. O italiano tinha fama de “constipado” e “flatulento”, e o alemão teria aderido à dieta vegetariana justamente para driblar a constipação e a flatulência que o afligiam –muito embora nunca tenha havido consenso se Hitler era de fato vegetariano ou isso foi apenas um truque de propaganda para torná-lo mais… palatável.

Enquanto a chef Dione Lucas, que liderava a cozinha de um hotel em Hamburgo frequentado por Hitler antes da Segunda Guerra clamava que o Führer adorava pombo recheado, uma de suas 15 provadoras oficiais, Margot Wölk, garantiu em 2013 que ele só comia vegetais.

“Ele era vegetariano. Ele não comeu carne durante todo o tempo que eu estava lá”, disse Wölk, a única sobrevivente do grupo, aos 96 anos. “A comida era deliciosa, apenas os melhores legumes, aspargos, pimentão, tudo o que você pode imaginar. E sempre acompanhados de arroz ou macarrão.”

Hitler e Mussolini, os dois líderes autoritários mais comumente associados pelos adversários a Bolsonaro, também sofriam de problemas digestivos.

O italiano tinha fama de “constipado” e “flatulento”, e o alemão teria aderido à dieta vegetariana justamente para driblar a constipação e a flatulência.

Nietzsche, pelo contrário, se dizia “um inimigo do vegetarianismo por experiência”, mas espicaçava sem dó a dieta de sua terra natal, que rejeitava tanto quanto a própria germanidade.

“A cozinha alemã como um todo –quantas são as coisas, quantos são os homens que lhe pesam na consciência!”, escreveu, em Ecce Homo.

“Eu sou, em todos os meus instintos mais profundos, estranho a tudo aquilo que é alemão, de modo que tão-só a proximidade de um alemão retarda a minha digestão.” E ainda: “Só o clima alemão já basta para desencorajar vísceras robustas e até mesmo heroicas”.

Outro alvo nutricional do filósofo era o excesso de batatas na mesa dos ingleses.

“A dieta inglesa, que, em comparação com a alemã, e até mesmo com a francesa, é uma espécie de ‘volta à natureza’, ou seja, ao canibalismo, repugna profundamente meu próprio instinto; me parece que ela dá pés de chumbo ao espírito –pés de inglesa…” E pontifica: “a melhor cozinha é a do Piemonte”.

Todas essas observações são feitas no livro em tom sarcástico, beirando o humorístico.

Os títulos dos capítulos levam o leitor à gargalhada: “Por que eu sou tão sábio”, “Por que sou tão inteligente”, “Por que eu escrevo livros tão bons”; “Por que eu sou um destino”. Soberba?

Bem, em relação ao Piemonte Nietzsche foi simplesmente profético.

101 anos depois de Ecce Homo, foi justamente nesta região do norte da Itália, mais especificamente na cidade de Bra, que nasceu em 1989 o movimento slow food, uma contraposição gastronômica à comida rápida, gordurosa e ultraprocessada dos McDonald’s e Burgers Kings da vida, tão apreciados por outro ídolo da extrema direita (e de Bolsonaro), Donald Trump.

O ex-presidente dos EUA se orgulhava de devorar pantagruelicamente os hambúrgueres genéricos das grandes cadeias de fast food, e inclusive ofereceu a jogadores de futebol americano, em 2019, um banquete regado a Big Macs e Whoppers em plena Casa Branca, sob o nariz de Abraham Lincoln –que sabia cozinhar e adorava comida caseira.

Em seu livro As Revoluções da Comida: O Impacto de Nossas Escolhas à Mesa (editora Todavia), o jornalista Rafael Tonon atribui a fixação de Trump por comida pronta a questões não só de preferência como de marketing, e também à “germofobia” do ex-presidente.

“Prefere comer um sanduíche perfeitamente acondicionado em uma caixa de papelão do que qualquer coisa que seja servida em um prato de louça que passou tempo demais em contato com o ambiente de um restaurante cheio de gente, mesmo em épocas pré-pandêmicas”, escreve Tonon.

“Trump, como a personificação algo caricatural do americano médio, acredita que a comida mais segura que se pode consumir em qualquer lugar que esteja vem de um balcão de fast food.”

Não há nada mais diferente dos hábitos alimentares de Bolsonaro e Trump do que o manifesto do movimento slow food: comer bem, limpo e justo, traduzido por comida saudável, produzido com práticas agrícolas sustentáveis em relação ao meio ambiente e com condições de trabalho respeitosas ao homem.

O exato oposto do bolsonarismo e sua biliosa defesa do agronegócio e dos agrotóxicos e de seu desprezo figadal por direitos trabalhistas.

Comer sem pressa, aliás, foi um dos conselhos médicos dados a Bolsonaro, aqueles que ele já disse que não vai cumprir.

“Uma maneira de comer mais lenta, mastigar melhor, fazer caminhadas diárias para contribuir”, aconselhou o médico Antônio Luiz Macedo, o mesmo que o atendeu após a “facada”.

Fica a questão: se o presidente comesse melhor seria menos indigesto ao Brasil e aos brasileiros?

Seria menos intolerante, menos machista, menos raivoso?

“Todos os preconceitos vêm das vísceras”, ensinava Nietzsche.

Vai uma picanha aí?

SM

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